quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

JOIO E TRIGO



   É sutil, mas é proselitismo; é separar o joio do trigo; é um egoísmo blasé, mas egoísmo, a forma como chamamos Deus de "meu Deus". "Meus Deus, isso", "meu Deus, aquilo". Deus-posse. É um "o seu, eu não sei; mas o meu..."

   O pronome possessivo, pressupomos, o define. 
A única pessoa que tratou Deus dessa forma no NT foi Cristo: "Meu Deus, vosso Deus. Meu pai, vosso pai." Nunca se incluiu num "nosso" e quando nos incluiu foi numa parte, porque era filho. O resto é enxerto. Só ele era - historicamente - excerto.

   "Pronome possessivo é o tipo de pronome que indica a que pessoa do discurso pertence o elemento ao qual se refere", eis a definição.

   Usamos "nosso" para com os do nosso grupo. Eis a nossa carteirada religiosa. Presunçosa, claro, como toda carteirada. A essa carteirada chamamos eufemisticamente de credo. Credo é o que credencia. "Meu Deus" reza meu credo também, caso contrário não é "meu Deus".

   Quando nos ensinou o "Pai nosso", imediatamente Cristo nos ensinou que (ele) "estás nos céus". Não nos credos, nos templos, nas nossas vãs teologias, nos nossos limitados horizontes de eventos, mas nos céus. Acima! Irredutível! Impossuível.

   Um Deus a quem se possui é um bem, não um Deus. É um Deus-coisa. E toda idéia de Deus-coisa nasceu do endeusamento de qualquer coisa mais do que da coisificação de qualquer Deus. Isso, sim, é idolatria. A mais egoística idolatria.

   Foi no altar a um "Deus desconhecido" e citando um autor "pagão" e não as escrituras, que Paulo viu verdade na fé dos atenienses. Percebeu conhecerem-no no desconhecimento, na despretensão. Na não apreensão do eterno. Ele, não sendo "coisa", "não habita em santuários feitos por mãos humanas", "nem é servido por mãos humanas". E "nele (todos) vivemos, e nos movemos, e existimos" e nunca, jamais, o contrário!

"Quem ama conhece a Deus... quem não ama não conhece a Deus", arrematou João.

   É sutil, mas é proselitismo. Separar o joio do trigo é tudo o que a religião faz e sempre fez. É sua razão bisbilhoteira de ser. Quanto mais radicalmente se assume assim, menos se percebe assim. A coisa fica natural, sutil. Radicais são os outros. Quanto menos radicalista um radical se vê, mais radical ele é. O radicalista, devoto do radicalismo, perdeu a raiz, a origem. Perdeu a Deus, enfim, julgando tê-lo achado. Quem salvar-se, perder-se-á; quem perder-se, salvar-se-á.
DILSON CUNHA
17/02/2016

EZEQUIEL DOMINGUES DOS SANTOS

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