domingo, 10 de janeiro de 2016

O SACRIFÍCIO DE VIÚVAS NO HINDUÍSMO


Considerações iniciais

 Uma das práticas mais repugnantes do Hinduísmo é, sem dúvida, o sacrifício que os britânicos batizaram com o nome de “suttee“, termo derivado da corruptela da palavra sânscrita Satī (सती), ritual em que a viúva atira-se no fogo da pira funerária de seu marido recém falecido.[1] Apesar da denominação “sacrifício de Satī” ter se tornado internacionalmente conhecida, este não é o nome pelo qual os hindus conhecem este ritual. Eles o denominam por sahagamana (सहगमन), que literalmente significa “ir” (गमनं-gamanam) “com” (सह-saha), portanto: “ir com” ou “acompanhar”. Também por sahamarana (सहमरन), que significa “morrer com”. Quando o marido falecia no campo de batalha, portanto em um local distante, e não era possível cremá-lo no mesmo instante e junto com a esposa, a denominação é anwahorana (अन्वहोरन), “subir em seguida”, quando suas cinzas e alguns pertences do marido eram então usados para substituí-lo, tais como o seu turbante, os seus sapatos ou as suas roupas, ou seja, em todos os casos, o significado é o da subida da viúva até o fogo da pira funerária a fim de sacrificar-se junto ao cadáver ou aos pertences do marido (Thompson, 1928: 15; Van den Bosch, 1995: 179 e Yang, 2008: 15). Mais especificadamente, Satī significa o status divino que a viúva alcança após se sacrificar na pira funerária, ou seja, ao imolar-se, ela torna-se uma Satī (deusa) e passa a proteger, desde o mundo celestial, os seus familiares após o seu suicídio. Ou, tal como outros interpretam, “Satī é algo que uma esposa torna-se gradualmente através do seu bom comportamento” (Harlan, 1994: 79). Quando examinada mais de perto, em lugar algum na literatura sânscrita, a palavra Satī aparece no sentido de sacrifício de viúva, portanto o sentido de sacrifício de viúva é uma criação dos administradores ingleses da Índia, durante o período colonial, porém, mesmo assim, o sentido de Satī como sacríficio de viúvas se tornou tão arraigado que, até mesmo a atual legislação proibindo a prática na Índia, o Sati Prevention Act (o Decreto de Prevenção de Sati), de 1987, utiliza a palavra Satī no sentido de sacrifício de viúvas.[2]

            O que mais intriga os indivíduos atualmente é o fato desta repugnante superstição ainda ser praticada no seio de uma religião predominante em um país civilizado, qual seja, a Índia, portanto diferente dos rituais bizarros praticados em regiões onde ainda predomina as religiões indígenas. No período colonial, os britânicos, os missionários e os viajantes ficaram horrorizados com a barbaridade do sacrifício, daí registraram relatos abomináveis sobre o que testemunharam, alguns deles serão reproduzidos mais adiante. Por exemplo, o missionário francês Abbé Jean-Antoine Dublois, que viveu no sul da Índia de 1792 a 1823, portanto antes da primeira efetiva proibição da prática deste sacrifício em 1829, por Lorde William Bentinck, na província de Bengala, depois seguida por outras províncias, expressou sua opinião com as seguintes palavras: “Embora o antigo e bárbaro costume que impõe o dever das viúvas de se sacrificarem voluntariamente na pira funerária de seus maridos não foi ainda expressamente abolido, ele é muito mais raro hoje do que era antigamente, especialmente nas regiões do sul da Índia. No norte e nas províncias próximas ao rio Ganges, contudo, as mulheres são mais frequentemente vistas se oferecendo como vítimas desta horrível superstição e, quer por motivo de vaidade ou pelo espírito de entusiasmo cego, entregam-se a uma morte que é tão cruel quanto idiota” (Dubois, 1906: 355).

Exageros

 De antemão, é preciso esclarecer que, embora os eventos mais impressionantes de uma religião nos levam a formar uma impressão arraigada da mesma, com isso imaginamos que o sacrifício de viúvas é uma prática predominante no Hinduísmo, ou até mesmo que todas as viúvas hindus são obrigadas a se sacrificarem com a morte de seus maridos, nada disto corresponde à realidade. Ao contrário, levantamentos e estatísticas confirmam que a prática sempre foi uma raridade na Índia, quando comparada com o imenso maior número de viúvas hindus que não se sacrificam, uma vez que este procedimento ritual nunca obteve uma aceitação unânime pelas diferentes correntes do Hinduísmo. Portanto, sempre existiram aqueles hindus que aprovavam este sacrifício e os que o reprovavam. Lourens P. Van den Bosch comenta: “Esta atenção focada no trágico e no grotesco levou frequentemente à formação de um quadro distorcido da cultura indiana, criando a impressão de que o suttismo era praticado por uma ampla camada da população. Este nunca foi o caso. Ele foi apenas ocasionalmente praticado, e na maioria dos casos restritos aos membros de castas específicas. Assim, durante o auge do suttismo, no final do século dezoito e no início do século dezenove, H. T. Colebrooke, um conhecido indologista e juiz na Suprema Corte de Calcutá, observou: ‘felizmente as mártires desta superstição não têm sido numerosas'” (Van den Bosch, 1995: 171).

A fraude textual pelos adeptos do sacrifício

 Ademais, em função de seu caráter bárbaro e obsceno, muitos são levados a pensar que este sacrifício é praticado sem uma superstição cuidadosamente elaborada por trás do barbarismo da prática. Muito diferente, existe um conjunto de crendices que justifica e motiva a viúva para cometer tal ato. À medida que a prática ganhou popularidade entre os hindus, a sua sanção foi, aos poucos, ganhando espaço nas escrituras hindus, bem como a aprovação de alguns intérpretes. A fim de convencer os demais de que o sacrifício de viúvas tinha aprovação védica, os defensores deste costume até adulteraram a redação da última palavra do verso X.18.07 do Rg Veda, o texto mais antigo do Hinduísmo, portanto considerado sua fonte. Ou seja, a palavra “agre” (अग्रे), a qual significa “em primeiro” ou “na frente”, foi trocada pela palavra “agne” (अग्ने), que significa “ó fogo”, para então transmitir a ideia de que a passagem se refere ao fogo da pira funerária, onde a viúva se encontrava para realizar as homenagens ao seu marido falecido. A redação do último pada deste verso é a seguinte: आ रोहन्तु जनयो योनिमग्रे (ā rohantu janayo yonimagre), que significa: “em primeiro lugar, que as mulheres subam até o local onde jaz o falecido”.[3] Os defensores do sacrifício de viúvas não alteraram apenas a ortografia da palavra, mas também deformaram a sua tradução, ou seja, ao invés de traduzir a palavra “agne” por “ó fogo”, que está no caso vocativo, traduziram-na por “para o fogo”, no caso dativo, a fim de que este trecho ficasse com o sentido de “em primeiro lugar, que as mulheres subam para o fogo” e, com isso, ficasse confirmada a existência do sacrifício de viúvas no período védico. Então, fazendo assim, manipularam o significado original de “agne” (ó fogo) através de um intencional atropelo gramatical, visto que a redação de “para o fogo”, no caso dativo, não é “agne“, mas sim “agnaye” (अग्नये). A. S. Altekar observou que este sentido só era possível de ser alcançado “alterando fraudulentamente a última palavra do verso de agre para agne” (Altekar, 1987: 117).

Gravura representando uma viúva se atirando na pira funerária de seu marido.


Outra falsificação foi a de que, ao invés de deformar a palavra “agre” para “agne” (equivocadamente como “para o fogo”), alguns partidários do suttismo a deformaram para “agneh” (अग्नेः – do fogo), no caso genitivo. Então, Edward Thompson propôs a seguinte tradução falsificada: “que as mães entrem no seio do fogo” (Thompson, 1928: 17). O grande orientalista do século XIX, F. Max Müller, chamou esta alteração de texto de “talvez o mais fragrante exemplo do que pode ser feito por um sacerdócio inescrupuloso” (Idem: 17). E o próprio E. Thompson comentou: “O homem que alterou “agre‘ para “agneh” foi três quartos pedante e um quarto fanático, e a alteração ilustra o ponto até o qual uma mente inteiramente pedante está preparada para chegar, a fim de conseguir uma redação que lhe satisfaça” (idem: 18).

            Entretanto, o trecho inicial do verso seguinte (X.18.08) elimina a possibilidade defendida pelos partidários do sacrifício de que a mulher se jogava no fogo da pira funerária do marido falecido ao afirmar: उदीर्ध्व नार्यभि जीवळोकं (udīrdhwa nāryabhi jīvalokam), “Levante-se, mulher, e venha para o mundo dos vivos”, isto é, ela era instruída em seguida a retirar-se de junto da pira e de juntar-se ao mundo dos seres vivos (jīvalokam). A. S. Altekar resume: “O verso em questão refere-se às mulheres com seus maridos aproximando para ungir o cadáver antes que eles fossem entregues às chamas, e não contém referência, qualquer que seja, a qualquer viúva sacrificando-se na pira funerária de seu marido” (Altekar, 1987: 117; ver também: Thompson, 1928: 22-4 e Bose, 2000: 23). Explicando mais claramente, esta passagem do Rg Veda apenas menciona a aproximação da viúva à pira funerária do marido para ungir seu cadáver, antes da pira ser incendiada, logo antes do ato de cremação, e não se refere ao ato da viúva de atirar-se na pira em chamas, junto com seu marido recém falecido, a fim de sacrificar-se, portanto não é um ato de sahagamana (acompanhar) o seu marido no mundo do além, tampouco de sahamarana (morrer com) o seu marido na pira funerária, o que leva os historiadores à presunção de que o sacrifício sahagamana não era praticado na antiguidade védica. P. V. Kane é categórico: “Não existe passagem védica que possa ser citada como inquestionavelmente referindo-se ao sacrifício de viúva como vigente na época, tampouco algum mantra que possa ter sido repetido nos tempos antigos durante tal sacrifício…” (Kane, 1941: vol. II, part I, 625).

O significado de Satī

            O termo Satī é um adjetivo feminino de sat (सत्), que significa: real, verdadeira, boa, virtuosa e pura. O nome é inspirado na mitologia da deusa Satī, a primeira esposa do deus Shiva, cujo desprezo de seu pai Daksha, por não ter convidado o seu marido Shiva para uma cerimônia de sacrifício, levou-lhe à decisão de suicidar-se. Com isso, Satī passou a significar “esposa fiel” (Bose, 2000: 22 e Yang, 2008: 15). A mitologia de Satī diverge em alguns pontos nas diferentes narrativas purânicas[4], no entanto, mesmo assim, é possível perceber a falta de conexão entre as idéias por trás do sacrifício de viúvas e as circunstâncias, a razão e a maneira pelas quais Satī cometeu o suicídio, tal como aparece na narrativa mitológica. No mito, Satī não se suicida em função da morte de seu marido Shiva, pois este não tinha morrido, mas sim por desgosto, portanto ela não se atirou na pira funerária de seu senhor. Também, a maneira pela qual ela se suicida no mito, que foi um “suicídio ióguico”, é muito diferente da maneira pela qual acontece a prática de suicídio de viúvas, tal como narrado no Shiva Purāna (Rudra Samhitā, seção II, Cap. 30, versos 02-8): “Observando silêncio e recordando o seu marido com grande respeito, Satī, a deusa, acalmou-se e se sentou no chão na ala norte. (…) Ela então entrou em transe ióguico. Mantendo sua cabeça firme, ela equilibrou as energias de Prāna e Udāna.[5] Ela então ergueu a energia de Udāna da região do umbigo, estabilizou-a na região do coração, levou-a através da garganta e a fixou no meio das sobrancelhas. Ela desejou descartar seu corpo devido ao seu ódio por Daksha. Ela desejou queimar seu corpo e reter a pura energia através de meios ióguicos. Nesta postura, ela recordou os pés de seu marido[6] e nada mais. Seu corpo livre de pecados caiu no fogo ióguico e foi reduzido a cinzas… ” (Shastri, 1993: part I, 415).[7]

            Tal como pode ser percebido pela narrativa acima, trata-se de um suicídio no estilo ióguico, a rigor, através de uma modalidade de ioga conhecida como Kundalinī Yoga, portanto muito diferente do ato de atirar-se na pira funerária de um marido recém falecido, de modo que, na mitologia, Satī não é uma viúva. Em nenhuma narrativa purânica, Satī suicida-se em razão da morte de seu marido Shiva, atirando-se no fogo da sua pira funerária (Hawley, 1994: 14). O Vāyu Purāna (XXX.62.54-5), em uma maneira mais resumida, relata outra versão da sua morte: “Ela (Satī) sentou-se aí com seu Ātman[8] em comunhão ióguica. Ela reteve mentalmente o Āgneyi Dhāranā[9]. Fogo surgiu de todos os membros e de seu corpo e foi apagado pelo vento do Āgneyi Dhāranā. Ele (o vento) a reduziu a cinzas” (Tagare, 1987: part I, 196).

Origem e desenvolvimento

            A origem deste costume na Índia ainda é um tema em discussão entre os historiadores. A sugestão mais citada é a de que a prática surgiu entre a casta dos guerreiros, através do voto obrigando as suas esposas a se auto sacrificarem com a morte de seus maridos no campo de batalha, a fim de evitar que elas, se sobrevivessem à morte de seus maridos, praticassem atos lascivos após a morte dos mesmos. Mas, esta é apenas uma conjectura. Muitos historiadores apontam as menções deste costume entre muitos povos antigos, alegando que a prática era, até certo ponto, comum na Antiguidade. Até mesmo na Mitologia Grega é possível encontrar um exemplo. Evadne (Εύάδνη), a esposa de Capaneu (Καπανύς), um dos príncipes de Argos que marcharam contra Tebas, atirou-se na fogueira em que o cadáver de seu marido era cremado (Grimal, 1992: 73-4 e 162). Entretanto, em quase todos os casos, não sabemos as causas dos suicídios daquelas viúvas, visto que os relatos são curtos, também o fato de nenhuma tradição ter alcançado a elaboração de um conjunto de ideias supersticiosas por trás da prática e, ademais, a ocorrência de tantos exemplos, bem como a sobrevivência do costume até recentemente, tal como na tradição do sutismo hindu, pois desta última foram preservados relatos detalhados do evento nos tempos mais recentes, sobretudo durante o período colonial britânico na Índia.[10] As menções mais antigas de atos de sacrifício de viúvas, na literatura hindu, aparecem nos épicos.  No Rāmāyana (Uttarakānda, 17,14), a mãe de Vedavati torna-se uma Satī, porém A. S. Altekar observa que este relato é mais lendário do que histórico. Também, quando o demônio Rāvana, através dos seus poderes mágicos, colocou diante dos olhos de Sītā a ilusão da morte de Rāma, ela expressou o desejo de ser queimada juntamente com seu marido. Mais uma vez, A. S. Altekar observa que esta passagem é provavelmente uma interpolação tardia (Altekar, 1987: 121). Ademais, pelo caráter do relato, esta última passagem só pode ser um mito.


           Mais referências são encontradas no Mahābhārata (I.138.71-2), onde Mādrī, uma das esposas de Pandu (o pai dos Pāndavas), se tornou uma Satī, apesar das insistentes tentativas dos parentes de dissuadi-la. Em outra passagem (Mausala Parva, XVI,07.18), as quatro esposas de Vasudeva, o pai de Krshna, atiraram-se na sua pira funerária. Também (XVI,07.73-4), ao saberem da morte de Krshna, cinco de suas esposas se lançam na pira funerária (Thompson, 1928: 18-9; Kane, 1941: vol. II, part I, 626 e Altekar, 1987: 120). A crítica textual aponta que estes épicos estão repletos de alterações e de interpolações, introduzidas em sucessivas épocas, portanto é possível supor que estas passagens foram acrescidas tardiamente quando o costume já tinha se tornado popular no Hinduísmo, e mais ainda, o fato de que a historicidade do que é relatado nestes dois épicos não está comprovada, portanto, tudo é mito.

           Contrário ao que podia se esperar, os primeiros registros verdadeiramente históricos sobre a prática deste sacrifício na Índia, aparecem nos relatos de historiadores estrangeiros. Mais especificadamente, nas obras do historiador grego do século I a.e.c., Deodoro da Cecília, onde ele menciona Ceteus, um comandante hindu dos soldados indianos do general Eumenes, o qual foi acompanhado na sua campanha, na Pérsia, por suas duas esposas, e morreu em combate em 316 a.e.c. Quando da sua cremação, por ser um hindu, as suas duas esposas disputaram a honra de se atirarem no fogo da pira funerária do marido. Após saberem que a esposa mais velha estava grávida, os generais de Eumenes decidiram que somente a esposa mais nova poderia se sacrificar (Altekar, 1987: 122 e Van den Bosch, 1995: 172-3). Veja o relato de Deodoro da Cecília na transcrição de Lourens Van den Bosch: “Deodoro da Cecília, por exemplo, relata que as duas esposas do general Ceteus, que foi morto em combate, lutaram pela honra de serem cremadas com ele. Seus companheiros julgaram que apenas uma esposa era suficiente e nenhuma compulsão foi usada. A esposa mais velha foi desqualificada em virtude de sua gravidez, enquanto a mais jovem obteve a honra. De acordo com Deodoro, a esposa mais velha comportou-se como se um grande desastre tinha acontecido com ela, e ela rasgou a grinalda de flores de sua cabeça e arrancou o seu cabelo. A outra se alegrou com a vitória e foi para a pira coroada com fitas, que as servas tinham atado ao seu cabelo, belamente vestida, como se fosse uma cerimônia de casamento. Ela foi escoltada por seus parentes, que cantavam em louvor de sua virtude. No caminho para a pira funerária, ela retirou os ornamentos e as jóias e os entregou para os seus servos e para as suas amigas. Perto do local da cremação, ela deixou a sua casa e foi auxiliada por seu irmão, quando ela subiu até a pira, onde ela inclinou-se diante do cadáver de seu marido. O exército todo caminhou por três vezes ao redor da pira antes que a mesma fosse acesa. Nenhum choro repugnante escapou de sua boca, enquanto a numerosa multidão assistia a cerimônia de cremação. Ao ler Deodoro, obtêm-se a impressão de que a esposa mais jovem não foi observada como uma vítima, mas como uma vitoriosa” (Van den Bosch, 1995: 178).

            O relato acima é um importante documento histórico, pois representa a primeira narrativa bem descritiva de uma cerimônia de sacrifício de viúva, atestando que a mesma já era praticada pelos hindus no século IV a.e.c. Também, o geógrafo grego Strabo (64 a.e.c. a 25 e.c.) menciona a prática de suttee entre algumas tribos no Punjab, isto é, entre os Kathaioi (Thompson, 1928: 19-20). Nas palavras de Lourens Van den Bosch: “O relato bem descritivo do sacrifício de viúvas por Deodoro mexeu com a imaginação a tal ponto que ele foi frequentemente copiado pelos autores clássicos. Como tal, ele influenciou profundamente a imaginação ocidental. Nós podemos admitir que a prática do suttismo foi um assunto altamente comovente e controvertido desde os primeiros dias. Deodoro e muitos autores posteriores descreveram o choque que a prática produzia entre os observadores. Embora a esposa sacrificava-se voluntariamente na pira funerária de seu marido, eles não conseguiam entendê-lo e procuravam por explicações” (Van den Bosch, 1995: 173).

Foto de Roop Kanwar, a jovem de 18 anos, com apenas 8 meses de casada, que se sacrificou em 05 de Setembro de 1987. O evento teve repercussão internacional.

            Estas descrições dos autores gregos da Antiguidade são importantes, visto que os mais antigos textos indianos não mencionam e tampouco prescrevem regras para a sua prática. Os hinos védicos não mencionam nem justificam o costume. Os mais antigos dharmashāstras não prescrevem a respeito. Ao contrário, um dos mais influentes, o Manusmriti, até sugere um destino oposto para a viúva: “… a boa mulher, embora não tenha filhos, irá para o céu quando ela firmemente aderir à vida celibatária após a morte de seu marido” (Manusmriti, V.160 – Olivelle, 2005: 146-7; ver também: Burnell, 1884: 132 e Bühler, 1993: 197). Ou seja, este texto prescreve que a viúva deve sobreviver à morte de seu marido. Dos dharmashāstras, apenas o tardio Vishnusmrti aponta o sacrifício como uma opção: “Após a morte de seu marido, (a viúva deve) preservar a sua castidade, ou atirar-se na pira após ele” (Vishusmriti, XXV.14 – Jolly, 1880: 111). Também, alguns purānas mais tardios elogiam a prática, tal como o Agni Purāna (222.19-23): “…A mulher (viúva) que se atira no fogo (funeral) para morrer com o seu marido (falecido) também alcançará o céu” (Gangadharan, 1985: part II, 578). Enquanto outros textos, bem ao contrário, desaprovam energicamente a prática: “Aquela mulher que, em sua ilusão, atira-se na pira funeral de seu marido, deve ir para o inferno” (Mahānirvāna Tantra, X.80 – Avalon, 1972: 245). Mostrando assim a controvérsia que cercava a prática deste costume no seio do próprio Hinduísmo.

            No início da Idade Média, uma das censuras mais severas quanto à pratica do sacrifício de viúvas foi feita pelo poeta indiano Bana (c. 625 e.c.), veja a tradução das suas palavras por A. S. Altekar: “Morrer após o falecimento do amado, diz ele, é no máximo inútil. É um costume seguido pelas idiotas. É um engano cometido sob enfatuamento. É um ato imprudente seguido somente em função de uma impetuosidade de momento. É um engano de magnitude estupenda. Não faz bem, qualquer que seja, para a pessoa falecida. Não lhe auxilia na sua subida ao céu, e não evita de se afundar no inferno. Não assegura, de modo algum, a união após a morte. A pessoa que morre vai para o lugar determinado por seu próprio karma, a pessoa que o acompanha na pira funeral  vai para o inferno reservado para aquelas que são culpadas de pecado por suicídio. Por outro lado, sobrevivendo ao falecimento, a pessoa pode realizar muitas boas ações para si mesma e para o falecido, praticando cerimônias de oferendas para a pessoa falecida no outro mundo. Morrendo com ele, a pessoa não poderá fazer bem algum” (Altekar, 1987: 124-5). O autor Edward Thompson avaliou: “Este rito (suttee) não era apenas obviamente imoral e cruel, ele também não era essencial ao Hinduísmo” (Thompson, 1928: 19).

            A partir da segunda metade do primeiro milênio, o costume parece ter se espalhado para grandes partes da Índia, especialmente entre certas famílias da classe guerreira. Também, desde este momento, pedras sobre Satī e pedras memoriais foram esculpidas para aquelas mulheres heróicas que voluntariamente acompanharam seus falecidos maridos. Tal como já mencionado acima, a aprovação do costume nunca foi uma unanimidade, o que resultou em acaloradas discussões.[11] Alguns o consideravam como uma forma de suicídio e, em função disto, como um ato dos mais repreensíveis, enquanto outros, a partir de ideias supersticiosas, o elogiavam como um supremo sacrifício, pois para estes últimos, com a cerimônia, a esposa promovia o bem estar de seu marido no outro mundo.

            Parece que, no início, o sacrifício era praticado somente pela casta dos guerreiros, porém, com o tempo, as esposas dos brâmanes foram autorizadas a serem queimadas, no entanto, desde que fossem sacrificadas na mesma pira do marido. Em outras palavras, a prática do costume tornou-se aceita em certos círculos de brâmanes e de guerreiros na primeira metade do segundo milênio, mas os protestos contra ele não pararam e até continuaram durante o período seguinte. No segundo milênio, o costume tornou-se um pouco mais comum, tal como pode ser deduzido do aumento no número de pedras memoriais esculpidas sobre Satī nesta época.


Procession_of_a_Suttee_Woman
Viúva se dirigindo para a pira funerária do marido falecido

            Ademais, o aumento dos contatos com o Oriente Médio e a Europa, na segunda metade do segundo milênio, fez surgir relatos de viajantes e de missionários. Lourens Van den Bosch informa que “o conhecido viajante norte africano, Ibn Battuta, que viveu na primeira metade do século quatorze, relatou, por exemplo, um chocante sacrifício de viúva em seu relato de viagem. Ele ficou tão comovido com a cena que ele quase desmaiou e teria caído de seu cavalo se seus amigos não estivessem por perto” (Van den Bosch, 1995: 178). Nos séculos seguintes, outros relatos sobre esta abominável prática foram escritos por outros viajantes e por missionários cristãos, alguns a partir de relatos descritos por outras testemunhas, e outros escritos por aqueles que foram testemunhas oculares do evento.

            O sacrifício de viúvas não é um simples ato de tão somente atirar-se na pira funerária do marido, ao contrário, o evento é cercado de uma pomposa cerimônia[12], cujo objetivo é encenar um re-casamento. Veja uma resumida descrição do ritual nas palavras de Lourens Van den Bosch: “a virtuosa esposa (Satī) é vestida como uma noiva, ela é abundantemente adornada com jóias e sua cabeça é enfeitada com flores. Ainda mais, música, canções de louvor e dança são sempre partes tradicionais destas festividades. Por esta razão, ele não é um evento triste, mas um evento alegre; a esposa se junta ao seu marido a fim de segui-lo como uma noiva para o mundo do além. Ela se apresenta a ele com seu vestido de noiva e com suas jóias de noivado, exatamente como durante as cerimônias de casamento. O sacramento de casamento é, de certa forma, demonstrado novamente diante do fogo de cremação neste palco crítico. Deste ponto de vista é impreciso falar sobre sacrifício de viúva, porque a esposa envolvida não é observada como uma viúva, mas como uma noiva que permanece com seu marido. Os muitos atributos com os quais ela se adorna e as muitas ações que ela executa não se referem a seu status como uma viúva, mas seu a status como uma noiva”[13] (Van den Bosch, 1995: 178). Enfim, as crenças supersticiosas estão tão arraigadas nesta tradição que, durante o ritual de sacrifício, a viúva é até representada fantasiando situações delirantes, tal como a situação de ser ainda uma noiva se dirigindo para um re-casamento com o seu marido no outro mundo.

A superstição por trás do sacrifício

            Se a cerimônia tem tanta pompa é porque existem fortes crenças que a motivam. O conjunto de superstições que sustenta este auto sacrifício é assim explicado pela autora Lindsey Harlan, quem realizou um detalhado trabalho de campo no estado do Rajastão (tradicionalmente um grande reduto do sacrifício de viúvas), Índia, nos anos 1984-5, junto com mulheres rajaputras.[14] Segundo ela, mais detalhadamente, “uma mulher torna-se uma sati através da aquisição de virtude ou de bondade, isto é, sat. A aquisição de sati é entendida como sendo a consequência de uma transformação pessoal que compreende três estágios conceituais, reconhecidos na tradição rajaputra como: pativrata, sativrata e satimata” (Harlan, 1994: 80).

            O primeiro estágio, isto é, o da esposa pativratā (पतिव्रता) que significa aquela esposa que fez o voto (व्रत-vrata) ao seu marido (पति-pati). O mais importante neste voto (vrata) e a proteção. A crença é a seguinte, se uma esposa é dedicada ao seu marido, e por isso o protege, ele prosperará. Se não, ele sofrerá, ou talvez até morrerá. Uma pativratā protege seu marido de dois modos. Primeiro, ela o serve, ela o ajuda em suas necessidades pessoais e o encoraja a cumprir os seus deveres. Em outras palavras, ela faz ambas as coisas, o auxilia como ele é e o ajuda a tornar-se o que ele deve ser.  Segundo, ela executa os votos de ritual (vratas), a maioria dos quais envolve jejum. Através do jejum, ela agrada as várias divindades, as quais a compensam protegendo o seu marido e lhe ajudam a ser uma pativratā melhor, assim aumentando a sua capacidade de proteger o seu marido.


Jodhpur_Sati
Reprodução simbólica das mãos das viúvas sacrificadas na morte de um Maharaja de Jodhpur, Índia.

            Conforme a superstição rajaputra, se a esposa não se dedica e não protege o marido devidamente, estas poderão ser as causas da morte do marido. Se o marido morre, então é porque a esposa não o protegeu devidamente, por isso ela é obrigada a se sacrificar na sua pira funerária. Pois, “se o marido da pativratā morrer antes dela, ela é culpada. Ela pode ser suspeita de devoção insuficiente e fingida” (Harlan, 1994: 80-1). Entretanto, ela pode escapar desta suspeita, se ela realizar outro voto (vrata), o voto de morrer como uma satī (esposa fiel). Se ela faz isto, então ela entra para o segundo estágio de satī. Assim, ela deixa de ser uma pativratā (aquela que realizou o voto de proteger o seu marido) para ser uma satīvratā (aquela que fez o voto de juntar-se ao seu marido no além), este é o segundo estágio (Harlan, 1994: 81). Agora, tal como a irracionalidade de todas as superstições, trata-se de uma estupidez absurda atribuir a culpa à esposa pela morte precoce do marido.

            Então, quando uma esposa afirma o seu voto de satī (सतीव्रता-satīvrata), ela torna-se uma sahagamini, aquela que vai (gamini) junto com (saha) seu marido. Por isso, mesmo se seu marido morre antes dela, ela é absolvida da culpa se ela sacrifica-se durante a cerimônia de cremação dele. Ela é também absolvida da culpa se ela sacrifica-se após a cremação dele, se a cremação dele ocorreu antes da esposa ficar sabendo da morte do marido. E a crendice não pára por aqui, “quando uma pativratā fica sabendo da morte de seu marido, o calor moral começa a consumir o seu corpo. Assim então, a esposa que realizou o voto de satī torna-se quente demais para ser tocada. Daí, qualquer pessoa que tentar detê-la será queimada consequentemente. Quando a sativratā alcança a pira do seu marido, seu corpo explode em chamas, e estas queimam o seu corpo e o do seu marido”[15] (Harlan, 1994: 81). Lourens Van den Bosch explica: “Após esta proclamação, sua posição era fundamentalmente alterada, porque ela não era mais observada como uma pessoa mortal comum, mas como um ser divino que era dotado com poderes sobrenaturais” (Van den Bosch, 1995: 180).

            E mais superstições ainda, após realizar o voto de satī (satīvrata), portanto o período entre o voto de satī e a morte da satī, uma esposa é considerada extremamente poderosa. “Ela possui poderes especiais, entre eles o poder de maldição (shrap) e o poder de estabelecer proibições (oks)” (Harlan, 1994: 81). Ao sacrificar-se na pira funerária de seu marido, uma esposa, que realizou o voto de satī, transforma-se de uma satīvratā em uma satīmātā (सतीमाता), este é o terceiro estágio. A palavra sânscrita mātā significa “mãe”, pois ela transforma-se em uma “deusa-mãe”, cujo papel após a morte é o de proteger uma família, tal como uma mãe protege seus filhos. Lourens Van den Bosch acrescenta: “Com seu sacrifício voluntário, ela desfazia todas as infrações de seu marido independente de suas gravidades, ainda mais, ela santificava seus próprios ancestrais e os do seu marido até a terça ou a sétima gerações” (Van den Bosch, 1995: 180).

            A cultura rajaputra acredita ingenuamente nas maldições (shraps) pronunciadas pelas satīvratās, tal como a de que uma maldição lançada contra uma família pode durar por até sete gerações (Harlan, 1994: 84). Mais supersticiosas ainda são as proibições (oks) pronunciadas pelas satīvratās: a proibição de usar cores tradicionais que as mulheres indianas usam como noivas (vermelho, rosa, etc.) e cores que mulheres usam quando dão a luz (amarelo brilhante estampado com vermelho); proibição contra certos tipos de jóias associadas ao casamento, tais como braceletes de tornozelo e vários outros braceletes e as proibições de usar berços de bebê. E o mais curioso ainda é que se acredita que, a família que cumpre estas proibições supersticiosas está sob a proteção de uma satīmātā.

            Em uma época e em um contexto cultural, cuja única tarefa importante na vida de uma mulher era o casamento, a crença em ideias e em práticas tão supersticiosas, tais como as mencionadas acima, poderá até ser justificada, isto é, quando se vive tão somente em função do casamento e do marido. Portanto, muito diferente da dinâmica mulher atual, cuja vida se divide em distintas ocupações tais como a família, a profissão, a educação, o entretenimento, o esporte, o passeio, etc.


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Protesto contra a libertação dos culpados pelo sacrifício de Roop Kanwar, em 1987.

            Se o auto sacrifício é na verdade um ato voluntário da viúva ou uma coação imposta pelos familiares, trata-se de uma discussão que se estende por muitos anos, entre os que aprovam e os que reprovam esta prática. Pois, existem casos em que a esposa agiu voluntariamente, até mesmo ignorando as dissuasões dos familiares, bem como os casos em que a viúva foi forçada a se sacrificar, sendo drogada. Também, exemplos em que a viúva tentou fugir do local de cremação, mas foi impedida pelos familiares, sendo então forçada a cometer o suicídio. Ou, casos em que a esposa foi amarrada em uma estaca, a fim de evitar a sua fuga (Van den Bosch, 1995: 180s e passim; também: Thompson: 1928: 52-6. Por exemplo, o padre holandês, A. Rogerius, que viveu na costa do Coromandel, sul da Índia, na primeira metade do século XVII, relatou o fato de que “a esposa só podia ser sacrificada voluntariamente, mas ele relatou também que os kshatriyas e os shūdras algumas vezes drogavam a vítima, a fim de que ela não pudesse reconsiderar a sua promessa ao seu marido falecido” (Van den Bosch, 1995: 180).

            Por outro lado, alguns administradores britânicos insistiam que a pira funerária deveria ser construída de tal maneira que a esposa pudesse pular fora dela no último momento, se o calor do fogo fizesse com que ela desistisse de sua decisão, visto que os textos canônicos (shāstras) reconheciam o direito da viúva de reconsiderar a sua decisão a qualquer momento. Por esta razão, amarrar a vítima, prendê-la em uma cabana ou atos similares eram observados como em desacordo com a lei. Porém, na prática, para os hindus, a decisão de uma esposa de se tornar uma satī era vista como irrevogável. Uma satī que desistia da sua promessa era uma desgraça para a sua família e, por esta razão, ela era expulsa (Van den Bosch, 1995: 180).

O relato de uma testemunha ocular

            As narrativas deste evento pelos missionários e pelos viajantes confirmam que a maneira de realizar a prática não era padronizada em todas as regiões, existindo até relatos, por observadores do sul da Índia, de que ao invés da cremação, a viúva (विधवा-vidhavā) era enterrada em uma vala com seu marido falecido[16] (Van den Bosch, 1995: 180). A partir de certo momento em diante, com a proibição da prática pelo lorde William Bentinck, governador da província de Bengala, em 1829, depois adotada por outras províncias e pelos principados da Índia, quando em 1861 estava abolida em quase todas as regiões, o número de ocorrências diminuiu drasticamente, portanto os relatos mais frequentes são os de missionários e os de viajantes que estiveram no subcontinente indiano antes das datas das proibições. Sendo assim, será interessante reproduzir em seguida o relato de uma testemunha ocular do século XVII. Para efeito de imparcialidade religiosa, escolhi o relato de um viajante.

            O viajante italiano Pietro della Valle relatou que ele encontrou uma procissão com uma satī na cidade de Ikkeri, no sul da Índia, em 12 de novembro de 1623. A esposa estava sem véu e sentada no dorso de um cavalo. Em uma mão ela segurava um espelho, no qual ela se contemplava com uma aparência triste, e na outra, ela estava segurando um limão. Acima de sua cabeça, um grande guarda chuva era seguro pelos assistentes, como sinal de suprema honra. Durante sua procissão de despedida, ela era acompanhada por músicos com tambores e muitos homens e mulheres a seguiam através da cidade e desejavam o melhor para ela. Della Valle ficou tão impressionado com isto que decidiu visitar a satī antes da cremação. Ele a encontrou no quintal da sua casa e relatou que ela estava vestida com uma roupa branca, que ele descreveu como um traje nupcial. Ela estava abundantemente adornada com colares, braceletes e outras jóias de ouro. Sua cabeça estava enfeitada com grinaldas de flores e em sua mão ela segurava um limão que, ele alegou, era a cerimônia usual. Della Valle menciona que ela parecia estar feliz, conversando e sorrindo, tal como uma noiva. Ele revelou também que a viúva tinha cerca de 30 anos de idade, e era mãe de um filho e de uma filha, os quais ela confiou aos cuidados de um tio e das duas outras esposas de seu falecido marido. Segundo ele, ela tinha tomado a decisão após ter refletido e sem compulsão (Van den Bosch, 1995: 181).

            Em relatos de outras testemunhas, a viúva segurava um coco, ao invés de um limão, ou uma flecha. Os significados supersticiosos destes objetos segurados na mão são explicados assim: O limão é uma fruta auspiciosa, que afastaria o mal. Uma vez que a satī está em um estágio transitório vulnerável, ela pode ser atacada por espíritos do mal, e o limão a protegeria contra eles. O coco tem o mesmo efeito. O espelho poderá expulsar todas as espécies de mal, especialmente maus espíritos, mas acredita-se que tenha efeito sobre o mau olhado (Van den Bosch, 1995: 181-2). Agora, colocando a cabeça no lugar, a decisão da viúva acima de confiar os cuidados de seus dois filhos para um tio e para as outras esposas de seu falecido marido, em um momento no qual os filhos mais precisarão da atenção e dos cuidados da mãe, uma vez que o pai faleceu, para então suicidar-se, é um exemplo do alto grau de estupidez da crendice por trás da prática deste sacrifício. Pois, atribuir tanta maior importância ao marido em detrimento dos filhos, bem como dos outros familiares e dos parentes, só pode ser a decisão de uma mente contaminada por superstições bárbaras.

Obras consultadas

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Notas

[1] É preciso lembrar que os hindus muito raramente enterram os cadáveres de seus falecidos, a prática esmagadoramente mais comum é a cremação, na qual o corpo é queimado em uma pira funerária e cuja cerimônia é acompanhada de elaborados ritos, de mantras e de cantos.

[2] Alguns pesquisadores e historiadores então preferiram usar a palavra Satī para se referir ao status da esposa, e o termo anglicizado suttee para se referir ao auto sacrifício, exemplo: Thompson, 1928: 16.

[3] A tradução da palavra sânscrita “yonim” (योनिम्) é problemática, os significados mais comuns são “útero”, “vulva”, “fonte” ou “origem”, porém não encaixam no contexto. H. H. Wilson a traduziu por “casa” (Wilson, 1990: vol. VI, 60), preferi a tradução de Ralph T. H. Griffith: “local onde ele jaz”.

[4] Para conhecer um resumo sintetizando as diferentes narrativas purânicas, ver Kinsley, 1987: 37-41.

[5] Referência à prática de Kundalinī Yoga.

[6] Trata-se de uma expressão poética no Hinduísmo. Contemplar os pés de lotos de alguém ou de uma divindade significa, no simbolismo hindu, reverência e adoração.

[7] Um relato quase que literalmente idêntico deste episódio é reproduzido no Bhāgavata Purāna IV.04.24-9, ver: Tagare, 1986: part II, 442-3.

[8] Espírito, esta passagem refere-se ao profundo estado de meditação.

[9] Esta é a concentração (dhāranā) no elemento fogo (agni). Uma das disciplinas ióguicas prescreve a concentração nos elementos da natureza, tais como o fogo (agni), o ar (vāyu), etc. Os praticantes acreditam no desenvolvimento de poderes milagrosos com a sua prática.

[10] Para aprofundamento, ver: Thompson, 1928: 39-56.

[11] Aqueles que desejarem aprofundar no debate sobre o sacrifício de viúvas entre os intérpretes dos dharmashastras (códigos de leis) hindus, consultar Brick, 2010: 203. O assunto não será aprofundado nesta obra, uma vez que me parece inconveniente gastar espaço aqui para detalhar a discussão, dentro da exegese hindu, sobre um costume tão bárbaro e supersticioso.

[12] Veja uma descrição do rito em Kane, 1941: 633-4.

[13] “A jovem de 18 anos, Roop Kanwar, que se sacrificou em 05 de Setembro de 1987, o último sacrifício de viúva com grande repercussão, também se vestiu como uma noiva e foi abundantemente adornada com jóias, segundo as descrições dos jornais” (Van den Bosch, 1995: 179; para aprofundamento, ver: Oldenburg, 1994: 101-130).

[14] Mulheres pertencentes a uma casta de antigos guerreiros do Rajastão, um estado no norte da Índia. Os rajaputros (inglês: rajputs), o nome deriva da palavra sânscrita composta राजपुत्र (rājaputra), isto é: राजन् (rājan) rei e पुत्रः (putrah) filho, portanto “filho de rei”, são conhecidos por sua bravura militar no passado e por seu estilo de vida tradicional.

[15] Em consequência disto, existe uma crença de que, quando a satīvratā alcança a pira funerária, o fogo não precisa ser aceso, uma vez que o próprio calor do corpo da satīvratā acende a pira por si só. Evidentemente, trata-se de uma superstição, pois o fenômeno nuca foi comprovado. Por exemplo, no último auto sacrifício (sahagamana) de grande repercussão internacional, ou seja, o de Roop Kanwar, em Setembro de 1987, o fogo da pira funerária foi aceso pelo seu cunhado mais jovem, o qual foi preso logo em seguida.

[16] Para conhecer as variedades de formas de execução do ritual de sacrifício de viúvas em diferentes partes da Índia, consultar: Thompson, 1928:39-43.

Extraído do blog OBSERVATÓRIO CRÍTICO DAS RELIGIÕES

EZEQUIEL DOMINGUES DOS SANTOS


Um comentário:

  1. Muito bom esse post, Ezequiel! Poucos sabem disso. Li sobre isso em uma revista católica polonesa, a LOVE ONE ANOTHER. Fiquei chocada! Sempre que vejo harekrishnas na rua me lembro dessa prática, não sei se eles sabem disso mas é assustador!

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