segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

DESERTOS EXISTENCIAIS



“Assim diz o Senhor: O povo que se livrou da espada logrou graça no deserto. Eu irei e darei descanso a Israel.” – Jeremias 31:2

As interpretações e analogias bíblicas com assuntos sobre deserto sempre aspira na alma da maioria dos cristãos o sentimento místico das experiências com Deus por meio do exílio, solidão, sofrimento e privações – ambiente e condições propícios para vivenciar o socorro, escape, livramento, proteção e revelação do Senhor.

Eu gosto do pensamento de que “o deserto é a escola de Deus” e de fato é; vemos isso em várias passagens bíblicas que não convém ao caso. Esse é um dos métodos de Deus para moldar, lapidar, fortalecer e amadurecer seus servos.

Grandes pensadores arrebanhavam públicos mas eram dados a solidão, muitos eram introspectivos e agudamente perceptíveis. Jesus ensinava multidões, mas se isolava para orar em lugares desertos de Israel, Maomé tinha o hábito de meditar em cavernas na Arábia, Zoroastro nas montanhas da Irã, o monge Pacômio nos desertos do Egito, São Bento nas fendas do Monte Cassino e etc. Deserto, caverna, montanha, solidão, contemplação são os ingredientes ideais para o surgimento de luzes e sabedoria.

Mas nem sempre o deserto tem toda essa conotação espiritualista; também é palco de sofrimento, angústia, falta de perspectiva, desorientação e perigos iminentes como no caso do profeta Elias que até desejou morrer. Muitas pessoas estão vivendo dessa forma, seja por fora no reino dos homens, seja por dentro no reino do seu Eu.

Cada vida é uma imensa história, e toda a história tem sua parte cheia de aflições e agruras. Trazem marcas, sequelas e consequências; mas também promovem o fortalecimento, a renovação e o crescimento individual dependendo de como a pessoa encara e enfrenta esses acontecimentos aparentemente negativos (dependendo de como a enxerga) da vida.

É claro que se pudesse, todo mundo afastaria os cálices no momento. Mas de acordo com o status quo do cosmos, qualquer movimento em direção ao Supremo Bem ou a sua própria felicidade de modo sadio acarretará em oposições, lutas e desafios com variações de graus e escalas. A ordem vigente é que quando você quer fazer o bem, o mal está contigo... ainda que todas as coisas possam cooperar para o bem.

Não dá para se desviar dos desertos da vida, mas é possível se munir de provisões e passar por ela (além de contar com a assistência de Deus); não dá para fugir dos problemas, porém é mais saudável e aconselhável enfrentá-los. A ótica com que encaramos o deserto é o que determina como e que de forma passaremos por ela: “Se te mostrares frouxo do dia da angústia, quão pequeno é a tua força!”

Poderá trazer sequelas, mas serão as marcas de Cristo em você; poderá acarretar em más consequências, mas a experiência significa que foste provado pelo fogo e saiu puro como o ouro. Aceitar o seu quinhão, se submeter ao beneplácito do Senhor e encarar com virilidade as dificuldades no deserto é a atitude de quem está indo bem na “escola de Deus”.


Para alguns o deserto existencial é árido demais, para outros nem tantos; para alguns é cheio de chacais e escorpiões no caminho, para outros aparece alguns oásis; alguns se perdem, outros se encontram. A travessia no deserto existencial seja qual tipo de deserto for é uma tarefa árdua, mas se conseguir colher frutos, esses será frutos eternos e imarcescíveis.

EZEQUIEL DOMINGUES DOS SANTOS

Nenhum comentário:

Postar um comentário