segunda-feira, 2 de setembro de 2013

AS NAÇÕES


Uma nação é uma comunidade de indivíduos que divergem no seu caráter, tendências, opiniões, mas são unidos por um laço moral mais forte que suas divergências.

Talvez a unidade religiosa constitua um fio deste laço. Contudo, as divergências religiosas não prejudicam a unidade nacional senão quando esta unidade já era fraca, como em certos países orientais.

Talvez a unidade da língua seja fundamental para a realização da unidade nacional. Existem, todavia, muitos povos que fala a mesma língua, mas divergem constantemente na sua política, administração e ideologia.

Talvez a unidade de sangue seja também essencial. Mas a História cita muitos exemplos de povos descendentes da mesma semente, que acabam se separando, se antagonizando, e lutando um contra o outro até sua mútua destruição.

Os interesses materiais talvez sejam mais um elemento da unidade. Mas em quantos países os interesses materiais só serviram para gerar competições e lutas internas.

Qual é, então, o fundamento essencial para a unidade nacional? Qual é o solo que cresce a árvore da nação? Tenho a este respeito ideias próprias, que certos pensadores estranham porque suas origens e consequências não são palpáveis.

Eis as minhas ideias:

Cada povo tem uma personalidade característica, assim como cada indivíduo tem uma personalidade característica. E embora a personalidade nacional tire seus elementos componentes dos indivíduos, como a árvore tira sua substância da água, luz, calor, essa personalidade geral é independente da personalidade individual e tem uma vida e uma vontade próprias.

Assim como acho difícil determinar a época em que se forma a personalidade de cada indivíduo, acho difícil determinar a época em que se forma a personalidade nacional. Sinto, contudo, que a personalidade egípcia, por exemplo, se formou 500 anos pelo menos antes do aparecimento da primeira dinastia nas margens do Nilo. Essa personalidade produziu as manifestações artísticas, religiosas e sociais da história egípcia. E o que digo do Egito se aplica à Assíria, Pérsia, Grécia, Roma, Arábia e às nações modernas.

Disse que a personalidade nacional tem uma vida especial. Sim, e tem também uma idade limitada que não pode ser ultrapassada, exatamente como é o caso de todos os seres vivos. O indivíduo se desenvolve à mocidade, à maturidade, á velhice; assim também se desenvolve a nação: da aurora ainda velada pelo sonho ao meio dia iluminado pelo esplendor do sol, à tarde marcada pelo tédio, à noite envolta no cansaço, a um sono profundo.

A entidade grega despertou no século X A.C., caminhou com força e majestade no século V, e achava-se esgotada quando chegou a era cristã. Entregou-se então para sempre aos sonhos da eternidade.

A entidade árabe tomou consciência de si mesma no século III antes do Islão. Com o profeta Maomé, levantou-se como um gigante e caminhou como um temporal, derrubando todos os obstáculos. E quando atingiu a época dos Abássidas, sentou-se num trono apoiado em muitas bases: desde a Índia até a Andaluzia. Depois, chegou ao entardecer, quando a personalidade mongólica estava crescendo e estendendo-se do Oriente ao Ocidente. Será o sono da entidade árabe bastante leve, e despertará ela de novo para exteriorizar o que permaneceu escondido nela, como voltou a entidade romana no tempo da Renascença Italiana e completou em Veneza e Florença e Milão o que havia sido interrompido pelos povos teutônicos, no começo da Idade Média?

A mais curiosa das entidades nacionais é a entidade francesa. Viveu 2000 anos diante do sol e continua jovem e radiante. E possui hoje uma mente mais penetrante e uma visão mais ampla e uma arte e uma ciência mais ricas do que em qualquer época passada, o que mostra que certas entidades nacionais tem vidas mais longas do que outras. A entidade egípcia viveu 3000 anos. A entidade grega só viveu 1000 anos. As causas desta desigualdade talvez sejam as mesmas que as determinam as idades individuais.

Que acontece às entidades nacionais após desempenharem seu papel no palco da existência? Desvanecem-se diante dos dias e das noites como se nunca tivessem sido uma manifestação dos dias e das noites? 

Na minha opinião, as entidades imateriais mudam, e não desaparecem. Como os seres materiais adquirem novas formas; mas sua essência sobrevive para sempre. A alma das nações dorme, como dormem as flores: quando suas sementes caem no chão, seu perfume sobre a mundo da eternidade. Para mim, é o perfume, na flor e na nação, que é a verdade pura, a essência absoluta. O perfume de Tebas e Babel e Nínive e Atenas e Bagdá está hoje no éter que envolve a terra. 

Talvez esteja no mais profundo de nossas almas. Todos nós, indivíduos e nações, somos herdeiros de todas as entidades nacionais que já existiram sobre a face da Terra.
Essa herança etérea não toma, contudo, formas palpáveis nos indivíduos até que se aperfeiçoe a nação à qual pertencem os indivíduos e adquira uma vida e uma vontade próprias.  

Gibran Khalil Gibran - Temporais

EZEQUIEL DOMINGUES DOS SANTOS

3 comentários:

  1. Olá amigo Ezequiel
    Um texto interessante
    Tenha uma semana bem legal

    Abraços,

    Trocyn Bão - Thiago

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  2. Estou alegre por encontrar blogs como o seu, ao ler algumas coisas,
    reparei que tem aqui um bom blog, feito com carinho,
    Posso dizer que gostei do que li e desde já quero dar-lhe os parabéns,
    decerto que virei aqui mais vezes.
    Sou António Batalha.
    Que lhe deseja muitas felicidade e saúde em toda a sua casa.
    PS.Se desejar visite O Peregrino E Servo, e se o desejar
    siga, mas só se gostar, eu vou retribuir seguindo também o seu.

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  3. Olá querido.. passando para agradecer sua visita ao meu blog e retribui-la.. gostei muito do seu.. que possamos encontrar em Deus graça para prosseguirmos nos caminhos dEle..!! Graça e Paz da parte de Cristo..!!

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