sábado, 20 de abril de 2013

UMA PALAVRA AOS EDUCADORES: STO. ANTONIO GRAMSCI E O GENOCÍDIO INTELECTUAL QUE FEZ O BRASIL DE HOJE

Parece que com este post fugiu o assunto corrente do blog que diz respeito a religião, política, ativismo e etc. No entanto o assunto abaixo é a explicação em sua raíz do espectro intelectual e ideológico que paira nas mentes de muitos brasileiros e infelizmente de muitos dos nossos honrados e heróis pedagogos. E também como o método gramsciano tem se impregnado na cultura brasileira (aceitação sem discutir o assunto) de modo que muitos o obedecem sem saber que a serviço dessa manobra social, também sua influência entrou em muitas esferas da sociedade que causa tudo isso que se critica no meu blog, inclusive na religião (então é assunto meu também). O texto é deveras longo por isso acredito que somente os educadores se interessarão de ler. O livro completo do texto está linkado no final do post.
  
STO. ANTONIO GRAMSCI
E A SALVAÇÃO DO BRASIL
 

QUEM DESEJE reduzir a um quadro coerente o aglomerado caótico de elementos que se agitam na cena brasileira, tem de começar a desenhá-lo tomando como centro um personagem que nunca esteve aqui, do qual a maioria dos brasileiros nunca ouviu falar, e que ademais está morto há mais de meio século, mas que, desde o reino das sombras, dirige em segredo os acontecimentos nesta parte do mundo.
Refiro-me ao ideólogo italiano Antonio Gramsci. Tendo-se tornado praxe entre as esquerdas jamais pronunciar o nome de Gramsci sem acrescentar-lhe a menção de que se trata de um mártir, apresso-me a declarar que o referido passou onze anos numa prisão fascista, de onde remeteu ao mundo, mediante não sei que artifício, os trinta e três cadernos de notas que hoje constituem, para os fiéis remanescentes do comunismo brasileiro, a bíblia da estratégia revolucionária. Mas não está só nisso a razão da aura beatífica que envolve o personagem. Da estratégia, tal como vista por ele, constituía um capítulo importante a criação de um novo calendário dos santos, que pudesse desbancar, na imaginação popular, o prestígio do hagiológio católico ( uma vez que a Igreja, na visão dele, era o maior obstáculo ao avanço do comunismo ). O novo panteão seria inteiramente constituído de líderes comunistas célebres, e baseado no critério segundo o qual "Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht são maiores do que os maiores santos de Cristo" — palavras textuais de Gramsci. Os seguidores do novo culto, com inteira lógica, puseram ainda mais alto na escala celeste o instituidor do calendário, motivo pelo qual não se pode falar dele sem a correspondente unção. E eu, temeroso como o sou de todas as coisas do além, não poderia iniciar esta breve exposição do gramscismo brasileiro sem a preliminar invocação ao seu patrono, em quem se depositam, neste momento, muitas esperanças de salvação do Brasil. Digo, pois: Sancte Antonie Gramsci, ora pro nobis.
Atendida esta devota formalidade, retorno aos fatos. Gramsci ficou, dizia eu, meditando na cadeia. Mussolini, que o mandara prender, acreditava estar prestando um serviço ao mundo com o silêncio que impunha àquele cérebro que ele julgava temível. Aconteceu que no silêncio do cárcere o referido cérebro não parou de funcionar; apenas começou a germinar idéias que dificilmente lhe teriam ocorrido na agitação das ruas. Homens solitários voltam-se para dentro, tornam-se subjetivistas e profundos. Gramsci transformou a estratégia comunista, de um grosso amálgama de retórica e força bruta, numa delicada orquestração de influências sutis, penetrante como a Programação Neurolinguística e mais perigosa, a longo prazo, do que toda a artilharia do Exército Vermelho. Se Lênin foi o teórico do golpe de Estado, ele foi o estrategista da revolução psicológica que deve preceder e aplainar o caminho para o golpe de Estado.
Gramsci estava particularmente impressionado com a violência das guerras que o governo revolucionário da Rússia tivera de empreender para submeter ao comunismo as massas recalcitrantes, apegadas aos valores e praxes de uma velha cultura. A resistência de um povo arraigadamente religioso e conservador a um regime que se afirmava destinado a beneficiá-lo colocou em risco a estabilidade do governo soviético durante quase uma década, fazendo com que, em reação, a ditadura do proletariado — na intenção de Marx uma breve transição para o paraíso da democracia comunista — ameaçasse eternizar-se, barrando o caminho a toda evolução futura do comunismo, como de fato veio a acontecer.
Para contornar a dificuldade, Gramsci concebeu uma dessas idéias engenhosas, que só ocorrem aos homens de ação quando a impossibilidade de agir os compele a meditações profundas: amestrar o povo para o socialismo antes de fazer a revolução. Fazer com que todos pensassem, sentissem e agissem como membros de um Estado comunista enquanto ainda vivendo num quadro externo capitalista. Assim, quando viesse o comunismo, as resistências possíveis já estariam neutralizadas de antemão e todo mundo aceitaria o novo regime com a maior naturalidade.
A estratégia de Gramsci virava de cabeça para baixo a fórmula leninista, na qual uma vanguarda organizadíssima e armada tomava o poder pela força, autonomeando-se representante do proletariado e somente depois tratando de persuadir os apatetados proletários de que eles, sem ter disto a menor suspeita, haviam sido os autores da revolução. A revolução gramsciana está para a revolução leninista assim como a sedução está para o estupro.
Para operar essa virada, Gramsci estabeleceu uma distinção, das mais importantes, entre "poder" ( ou, como ele prefere chamá-lo, "controle" ) e "hegemonia". O poder é o domínio sobre o aparelho de Estado, sobre a administração, o exército e a polícia. A hegemonia é o domínio psicológico sobre a multidão. A revolução leninista tomava o poder para estabelecer a hegemonia. O gramscismo conquista a hegemonia para ser levado ao poder suavemente, imperceptivelmente. Não é preciso dizer que o poder, fundado numa hegemonia prévia, é poder absoluto e incontestável: domina ao mesmo tempo pela força bruta e pelo consentimento popular — aquela forma profunda e irrevogável de consentimento que se assenta na força do hábito, principalmente dos automatismos mentais adquiridos que uma longa repetição torna inconscientes e coloca fora do alcance da discussão e da crítica. O governo revolucionário leninista reprime pela violência as idéias adversas. O gramscismo espera chegar ao poder quando já não houver mais idéias adversas no repertório mental do povo.
Que esse negócio é tremendamente maquiavélico, o próprio Gramsci o reconhecia, mas fazendo disto um título de glória, já que Maquiavel era um dos seus gurus. Apenas, ele adaptou Maquiavel às demandas da ideologia socialista, coletivizando o "Príncipe". Em lugar do condottiere individual que para chegar ao poder utiliza os expedientes mais repugnantes com a consciência tranquila de quem está salvando a pátria, Gramsci coloca uma entidade coletiva: a vanguarda revolucionária. O Partido, em suma, é o novo Príncipe. Como o sangue-frio dos homens fica mais frio na medida em que eles se sentem apoiados por uma coletividade, o Novo Príncipe tem uma consciência ainda mais tranquila que a do antigo. O condottiere da Renascença não tinha apoio senão de si mesmo, e nas noites frias do palácio tinha de suportar sozinho os conflitos entre consciência moral e ambição política, encontrando no patriotismo uma solução de compromisso. No Novo Príncipe, a produção de analgésicos da consciência é trabalho de equipe, e nas fileiras de militantes há sempre uma imensa reserva de talentos teóricos que podem ser convocados para produzir justificações do que quer que seja.
Os intelectuais desempenham por isso, na estratégia gramsciana, um papel de relevo. Mas isto não quer dizer que suas idéias sejam importantes em si mesmas, pois, para Gramsci, a única importância de uma idéia reside no reforço que ela dá, ou tira, à marcha da revolução. Gramsci divide os intelectuais em dois tipos: "orgânicos" e "inorgânicos" ( ou, como ele prefere chamá-los, "tradicionais" ). Estes últimos são uns esquisitões que, baseados em critérios e valores oriundos de outras épocas, e sem uma definida ideologia de classe, emitem idéias que, ignoradas pelas massas, não exercem qualquer influência no processo histórico: acabam indo parar na lata de lixo do esquecimento, a não ser que tenham a esperteza de aderir logo a uma das correntes "orgânicas". Intelectuais orgânicos são aqueles que, com ou sem vinculação formal a movimentos políticos, estão conscientes de sua posição de classe e não gastam uma palavra sequer que não seja para elaborar, esclarecer e defender sua ideologia de classe. Naturalmente, há intelectuais orgânicos "burgueses" e "proletários". Estes são a nata e o cérebro do Novo Príncipe, mas aqueles também têm alguma utilidade para a revolução, pois é através deles que os revolucionários vêm a conhecer a ideologia do inimigo. Gramsci mencionava como protótipos de intelectuais orgânicos burgueses Benedetto Croce e Giovanni Gentile: o liberal antifascista e o ministro de Mussolini.
O conceito gramsciano de intelectual funda-se exclusivamente na sociologia das profissões e, por isto, é bem elástico: há lugar nele para os contadores, os meirinhos, os funcionários dos Correios, os locutores esportivos e o pessoal do show business. Toda essa gente ajuda a elaborar e difundir a ideologia de classe, e, como elaborar e difundir a ideologia de classe é a única tarefa intelectual que existe, uma vedette que sacuda as banhas num espetáculo de protesto pode ser bem mais intelectual do que um filósofo, caso se trate de um "inorgânico" como por exemplo o autor destas linhas.
Os intelectuais no sentido elástico são o verdadeiro exército da revolução gramsciana, incumbido de realizar a primeira e mais decisiva etapa da estratégia, que é a conquista da hegemonia, um processo longo, complexo e sutil de mutações psicológicas graduais e crescentes, que a tomada do poder apenas coroa como uma espécie de orgasmo político.
A luta pela hegemonia não se resume apenas ao confronto formal das ideologias, mas penetra num terreno mais profundo, que é o daquilo que Gramsci denomina — dando ao termo uma acepção peculiar — "senso comum". O senso comum é um aglomerado de hábitos e expectativas, inconscientes ou semiconscientes na maior parte, que governam o dia-a-dia das pessoas. Ele se expressa, por exemplo, em frases feitas, em giros verbais típicos, em gestos automáticos, em modos mais ou menos padronizados de reagir às situações. O conjunto dos conteúdos do senso comum identifica-se, para o seu portador humano, com a realidade mesma, embora não constitua de fato senão um recorte bastante parcial e frequentemente imaginoso. O senso comum não "apreende" a realidade, mas opera nela ao mesmo tempo uma filtragem e uma montagem, segundo padrões que, herdados de culturas ancestrais, permanecem ocultos e inconscientes.
Como o que interessa não é tanto a convicção política expressa, mas o fundo inconsciente do "senso comum", Gramsci está menos interessado em persuasão racional do que em influência psicológica, em agir sobre a imaginação e o sentimento. Daí sua ênfase na educação primária. Seja para formar os futuros "intelectuais orgânicos", seja simplesmente para predispor o povo aos sentimentos desejados, é muito importante que a influência comunista atinja sua clientela quando seus cérebros ainda estão tenros e incapazes de resistência crítica.
O senso comum não coincide com a ideologia de classe, e é precisamente aí que está o problema. Na maior parte das pessoas, o senso comum se compõe de uma sopa de elementos heteróclitos colhidos nas ideologias de várias classes. É por isto que, movido pelo senso comum, um homem pode agir de maneiras que, objetivamente, contrariam o seu interesse de classe, como por exemplo quando um proletário vai à missa. Nesta simples rotina dominical oculta-se uma mistura das mais surpreendentes, onde um valor típico da cultura feudal-aristocrática, reelaborado e posto a serviço da ideologia burguesa, aparece transfundido em hábito proletário, graças ao qual um pobre coitado, acreditando salvar a alma, comete, na realidade, apenas uma grossa sacanagem contra seus companheiros de classe e contra si mesmo.
Aí é que entra a missão providencial dos intelectuais. Sua função é precisamente por um fim a essa suruba ideológica, reformando o senso comum, organizando-o para que se torne coerente com o interesse de classe respectivo, esclarecendo-o e difundindo-o para que fique cada vez mais consciente, para que, cada vez mais, o proletário viva, sinta e pense de acordo com os interesses objetivos da classe proletária e o burguês com os da classe burguesa. A este estado de perfeita coincidência entre idéias e interesses de classe, quando realizado numa dada sociedade e cristalizado em leis que distribuem a cada classe seus direitos e deveres segundo uma clara delimitação dos respectivos campos ideológicos, Gramsci denomina Estado Ético. É a escalação final dos dois times, antes de começar o prélio decisivo que levará o Partido ao poder. O público brasileiro tem ouvido este termo, proferido num contexto de combate à corrupção e de restauração da moralidade. Mas ele é um termo técnico da estratégia gramsciana, que designa apenas uma determinada etapa na luta revolucionária — uma etapa, aliás, bastante avançada, na qual a radicalização do conflito de interesses de classe prepara o início da etapa orgástica: a conquista do poder. Que, no caótico senso comum brasileiro, o termo Estado Ético tenha ressonâncias moralizadoras inteiramente alheias ao seu verdadeiro intuito, mostra apenas que o público nacional ignora a inspiração diretamente gramsciana do Movimento pela Ética na Política e nem de longe suspeita que seu único objetivo é politizar a ética, canalizando as aspirações morais mais ou menos confusas da população de modo a que sirvam a objetivos que nada têm a ver com o que um cidadão comum entende por moral. O Estado Ético, na verdade, não apenas é compatível com a total imoralidade, como na verdade a requer, pois consolida e legitima duas morais antagônicas e inconciliáveis, onde a luta de classes é colocada acima do bem e do mal e se torna ela mesma o critério moral supremo. Daí por diante, a mentira, a fraude ou mesmo o homicídio podem se tornar louváveis, quando cometidos em defesa da "nossa" classe, ao passo que a decência, a honestidade, a compaixão podem ter algo de criminoso, caso favoreçam a classe adversária. Que o tradicional discurso moralista da burguesia brasileira tenha podido ser assim usado como arma para desferir um golpe mortal na hegemonia burguesa, mostra menos a esperteza da esquerda gramsciana do que a estupidez paquidérmica da nossa classe dominante. Que, por outro lado, os próprios agentes do gramscismo finjam acreditar no caráter apolítico e puramente higiênico da campanha moralizante — apaziguando assim os temores daqueles que serão suas primeiras vítimas — é nada mais que uma expressão da linguagem dupla, inerente a uma estratégia na qual a camuflagem é tudo. São lições de Antonio Só-a-Cabecinha Gramsci.
É quase impossível que, a esta altura, a expressão "inversão de valores" não ocorra ao leitor. Essa inversão é, de fato, um dos objetivos prioritários da revolução gramsciana, na fase da luta pela hegemonia. Mas Gramsci é, neste ponto, bastante exigente: não basta derrotar a ideologia expressa da burguesia; é preciso extirpar, junto com ela, todos os valores e princípios herdados de civilizações anteriores, que ela de algum modo incorporou e que se encontram hoje no fundo do senso comum. Trata-se enfim de uma gigantesca operação de lavagem cerebral, que deve apagar da mentalidade popular, e sobretudo do fundo inconsciente do senso comum, toda a herança moral e cultural da humanidade, para substituí-la por princípios radicalmente novos, fundados no primado da revolução e no que Gramsci denomina "historicismo absoluto" ( mais adiante explico ).
Uma operação dessa envergadura transcende infinitamente o plano da mera pregação revolucionária, e abrange mutações psicológicas de imensa profundidade, que não poderiam ser realizadas de improviso nem à plena luz do dia. O combate pela hegemonia requer uma pluralidade de canais de atuação informais e aparentemente desligados de toda política, através dos quais se possa ir injetando imperceptivelmente na mentalidade popular toda uma gama de novos sentimentos, de novas reações, de novas palavras, de novos hábitos, que aos poucos vá mudando de direção o eixo da conduta.
Daí que Gramsci dê relativamente pouca importância à pregação revolucionária aberta, mas enfatize muito o valor da penetração camuflada e sutil. Para a revolução gramsciana vale menos um orador, um agitador notório, do que um jornalista discreto que, sem tomar posição explícita, vá delicadamente mudando o teor do noticiário, ou do que um cineasta cujos filmes, sem qualquer mensagem política ostensiva, afeiçoem o público a um novo imaginário, gerador de um novo senso comum. Jornalistas, cineastas, músicos, psicólogos, pedagogos infantis e conselheiros familiares representam uma tropa de elite do exército gramsciano. Sua atuação informal penetra fundo nas consciências, sem nenhum intuito político declarado, e deixa nelas as marcas de novos sentimentos, de novas reações, de novas atitudes morais que, no momento propício, se integrarão harmoniosamente na hegemonia comunista.
Milhões de pequenas alterações vão assim sendo introduzidas no senso comum, até que o efeito cumulativo se condense numa repentina mutação global ( uma aplicação da teoria marxista do "salto qualitativo" que sobrevem ao fim de uma acumulação de mudanças quantitativas ). Ao esforço sistemático de produzir esse efeito cumulativo Gramsci denomina, significativamente, "agressão molecular": a ideologia burguesa não deve ser combatida no campo aberto dos confrontos ideológicos, mas no terreno discreto do senso comum; não pelo avanço maciço, mas pela penetração sutil, milímetro a milímetro, cérebro por cérebro, idéia por idéia, hábito por hábito, reflexo por reflexo.
É claro que a mutação almejada não abrange somente o terreno das convicções políticas, mas visa principalmente às reações espontâneas, aos sentimentos de base, às cadeias de reflexos que determinam inconscientemente a conduta. Condutas sedimentadas no inconsciente humano há séculos ou milênios devem ser desarraigadas, para ceder lugar a uma nova constelação de reações. É importante, por exemplo, varrer do imaginário popular figuras tradicionais de heróis e de santos que expressem determinados ideais, pois essas figuras estão imantadas de uma força motivadora que dirige a conduta dos homens num sentido hostil à proposta gramsciana. Elas devem ser substituídas por um novo panteão de ídolos, no qual, como se viu acima, Karl Liebknecht, Rosa Luxemburgo, Lênin, Stálin e obviamente o próprio Gramsci ocupam os lugares de S. Francisco de Assis, Santa Terezinha do Menino Jesus e tutti quanti. Gramsci copiou nisto uma idéia de Augusto Comte, de trocar o calendário dos santos da Igreja por um panteão de heróis revolucionários. Apenas, os ídolos de Comte eram os da Revolução Francesa: Gramsci atualizou a folhinha.
Uma lavagem cerebral de tão vasta escala não poderia, certamente, limitar-se a extirpar da cabeça humana crenças religiosas, imagens, mitos e sentimentos tradicionais: ela deveria também estender-se às grandes concepções filosóficas e científicas. A estas, Gramsci queria destruir pela base, todas de uma vez, para substituí-las por uma nova cosmovisão inspirada no marxismo, ou antes, numa caricatura hipertrófica de marxismo que o próprio Marx rejeitaria com desprezo. Pois Marx considerava-se, sobretudo, o herdeiro de grandes tradições filosóficas como o aristotelismo, e construiu sua filosofia no intuito de torná-la uma ciência, uma descrição objetivamente válida das bases do processo histórico. Para Gramsci, as tradições filosóficas devem ser todas varridas de uma vez, e junto com elas a distinção entre "verdade" e "falsidade". Pois Gramsci não é um marxista puro-sangue. Através de seu mestre Antonio Labriola, ele recebeu uma poderosa influência do pragmatismo, escola para a qual o conceito tradicional da verdade como uma correspondência entre o conteúdo do pensamento e um estado de coisas deve ser abandonado em proveito de uma noção utilitária e meramente operacional. Nesta, "verdade" não é o que corresponde a um estado objetivo, mas o que pode ter aplicação útil e eficaz numa situação dada. Enxertando o pragmatismo no marxismo, Labriola e Gramsci propunham que se jogasse no lixo o conceito de verdade: na nova cosmovisão, toda atividade intelectual não deveria buscar mais o conhecimento objetivo, mas sim a mera "adequação" das idéias a um determinado estado da luta social. A isto Gramsci denominava "historicismo absoluto". Nesta nova cosmovisão, não haveria lugar para a distinção — burguesa, segundo Gramsci — entre verdade e mentira. Uma teoria, por exemplo, não se aceitaria por ser verdadeira, nem se rejeitaria por falsa, mas dela só se exigiria uma única e decisiva coisa: que fosse "expressiva" do seu momento histórico, e principalmente das aspirações da massa revolucionária. Dito de modo mais claro: Gramsci exige que toda atividade cultural e científica se reduza à mera propaganda política, mais ou menos disfarçada.
A "filosofia" de Gramsci resolve-se assim num ceticismo teorético que completa a negação da inteligência pela sua submissão integral a um apelo de ação prática; ação que, realizada, resultará em varrer a inteligência da face da Terra, por supressão das condições que possibilitam o seu exercício: a autonomia da inteligência individual e a fé na busca da verdade. Substituída a primeira pela arregimentação de "intelectuais orgânicos" de carteirinha, e a segunda pela concentração de todas as energias intelectuais no nobre mister da propaganda revolucionária, quê sobrará da aptidão humana para discernir entre verdade e mentira?
Gramsci é, em suma, o profeta da imbecilidade, o guia de hordas de imbecis para quem a verdade é a mentira e a mentira a verdade. Somente um outro imbecil como Mussolini podia considerá-lo "uma inteligência perigosa". O perigo que há nela é o da malícia que obscurece, não o da inteligência que clareia; e a malícia é a contrafação simiesca da inteligência. Mas a reação de Mussolini é significativa. Há nela a típica inveja mórbida do brutamontes de direita pelo intelectual esquerdista, sua sombra junguiana que ele não compreende e que por isto mesmo lhe parece, por suas habilidades vistosas, o protótipo mesmo da inteligência. A atração é mútua, como se vê pelo culto de Nelson Rodrigues entre os esquerdistas que ele achincalhou como ninguém. Entre a grossura direitista e a pseudo-intelectualidade esquerdista, a relação é o amor-ódio de um casamento sadomasoquista. Casamento entre le genti dolorose / C'hanno perduto il ben dello intelletto... Non ragioniam di lor, ma guarda e passa.
Para quem quer que pense com a própria cabeça, as teorias de Gramsci não apresentam o menor interesse, tanto quanto não o apresentam as velhas escolas céticas gregas, das quais o gramscismo é uma reedição mal atualizada. A refutação do ceticismo é, como se sabe, o primeiro teste do aprendiz de filósofo. Tal como se refuta o ceticismo — a negação de toda certeza — pela simples afirmação de que a negação também é incerta, o gramscismo igualmente não resiste a um confronto consigo mesmo: tendo negado a veracidade objetiva, ele se reduz a uma "expressão de aspirações". Tendo reduzido toda a cultura à propaganda, ele próprio se desmascara como mera propaganda. Não tem sequer a pretensão de ser verdadeiro: nada pretende provar nem demonstrar; quer apenas seduzir, induzir, conduzir. O tipo de mentalidade que se interessa por pensamentos desse gênero é certamente imune a qualquer preocupação de veracidade, mas é movido por uma ambição insaciável que o faz revolver sem descanso as trevas, numa "ação" estéril, nervosa, destrutiva, da qual promete em vão fazer nascer um mundo. Por uma inevitável e trágica compensação, quanto menos um homem é apto a enxergar o mundo, mais assanhado fica de transformá-lo — de transformá-lo à imagem e semelhança da sua própria escuridão interior.
Se nos perguntamos, agora, como foi possível que uma filosofia assim grosseira alcançasse no Brasil tão vasta audiência a ponto de inspirar o programa de um partido político, a resposta deve levar em consideração três aspectos: primeiro, a predisposição da intelectualidade brasileira; segundo, as condições do momento; terceiro, a natureza mesma dessa filosofia.
Ao longo da nossa história intelectual, somente três correntes de pensamento lograram exercer uma influência duradoura e profunda sobre as camadas intelectuais brasileiras: o positivismo de Augusto Comte, o neotomismo de Leão XIII, o marxismo. O que há de comum entre elas é que não são propriamente filosofias, mas programas de ação coletiva, destinados a moldar ou remoldar o mundo segundo as aspirações de suas épocas e de seus mentores. O positivismo parte da constatação de que a Revolução Francesa, derrubando as concepções cristãs, deixou sua obra pela metade, na medida em que não pôs no lugar delas uma nova religião; o positivismo constitui esta nova religião, com templo, calendário dos santos, ritual e tudo o mais; e as teorias filosóficas não são senão a sustentação do novo Estado teocrático que Comte pretende fundar. O neotomismo é a reação que, ao novo Estado teocrático, opõe um apelo ao retorno do antigo, devidamente revisto e atualizado. Finalmente, o marxismo é o programa de ação do movimento socialista. Nos três, as idéias, as teorias, não têm um valor intrínseco mas servem apenas como retaguardas psicológicas da ação prática. Os três não querem interpretar o mundo, mas transformá-lo. ( Cabe uma ressalva com relação ao neotomismo: não confundi-lo com o tomismo, se por esta palavra se entende a filosofia de Sto. Tomás de Aquino. O tomismo é filosofia no sentido pleno; o neotomismo é, ao contrário, um movimento cultural e político — ideológico, em suma — votado à difusão dessa filosofia, tomada como solução pronta de todos os problemas e, portanto, esvaziada de boa parte de sua substância filosófica. Afinal, tudo o que é neo-alguma-coisa é, por definição, apenas uma nova casca da qual essa coisa é o miolo. Observações semelhantes poderiam fazer-se, com reservas, também do positivismo e do marxismo: em ambos há na raiz algo de filosofia autêntica, sufocada pelo desenvolvimento hipertrófico de um programa de ação prática, dela deduzido aos trambolhões. )
Filosofias que recuam da especulação teorética para a proposição de ações práticas são filosofias da decadência; marcam as épocas em que os homens já não conseguem compreender o mundo e passam a agitar-se para escapar de um mundo incompreensível. A sofística nasce, na Grécia, do fracasso das primeiras especulações cosmológicas de Tales, Anaximandro, Anaximenes, Parmênides e Heráclito; incapaz de resolver as contradições entre as teorias, ela transfere o eixo das preocupações humanas para a vida prática imediata: para a política do dia. Os sofistas são professores de retórica, que ensinam aos jovens políticos os meios de agir sobre as consciências. À sofística opõe Sócrates a dialética e o ideal da demonstração apodíctica que orientará os esforços gregos em direção ao saber científico. Cinco séculos mais tarde, após o esquecimento das grandes sínteses teoréticas de Platão e Aristóteles, tornam-se novamente dominantes as escolas praticistas: os cínicos, os cirenaicos, os megáricos e, em parte, os estóicos. E assim prossegue a história do pensamento Ocidental, numa pulsação entre o empenho da compreensão teorética e a queda no ceticismo praticista. O fundo comum de onde emergem o positivismo, o marxismo e o neotomismo é a dissolução do racionalismo clássico, levado a um beco sem saída pela crítica kantiana e que tem no idealismo alemão o seu canto de cisne. Positivismo, marxismo e neotomismo são as filosofias de uma época que não tem filosofia nenhuma; de uma época que anseia por transformar o mundo na medida mesma em que é incapaz de desempenhar o esforço teorético necessário para compreendê-lo.
Num texto clássico — Crise da Filosofia Ocidental ( l874 ) —, o filósofo russo Vladimir Soloviev previu que a filosofia, como atividade intelectual essencialmente individual, oposta ao pensamento coletivo da religião e da ciência, estava em vias de acabar, para ceder lugar a algo de totalmente diferente. Ele esperava o advento de uma grande síntese, mas o que se viu foi o advento do "século das ideologias". Ora, o Brasil entra no curso espiritual do mundo justamente no momento em que Soloviev faz esse diagnóstico: recebemos maciçamente o impacto das novas ideologias, antes de termos podido vivenciar a tradição filosófica que as antecedeu. Nosso contato com as fontes filosóficas da civilização do Ocidente continuou superficial, ao passo que nos entregávamos de corpo e alma às retóricas coletivistas. Passado mais de um século, ainda não temos uma boa tradução de Aristóteles, mas publicamos, já na década de 60, as obras completas de Antonio Gramsci.
De outro lado, toda tentativa nossa de penetrar mais fundamente no campo da filosofia mesma ficou limitada pela timidez, pela insegurança, que nos fazia apegar-nos como crianças à proteção de algum superego estrangeiro da moda. Cinco décadas de atividade filosofante na USP foram resumidas no título acachapante do livro recém-publicado de Paulo Arantes: Um Departamento Francês de Ultramar. Escritórios de importação, representantes autorizados, imitação, pedantismo, oscilação entre a falsa consciência e a consciência de culpa marcam todos os nossos esforços filosóficos universitários no sentido de um pensamento independente. No fim, o intelectual com pretensões filosóficas só encontra alívio quando desiste delas e recai no pensamento coletivo; quando, abdicando de interpretar o mundo, se alinha, contrito e obediente, numa das correntes que professam transformá-lo: as conversões ao catolicismo, ao comunismo e às ideologias cientificistas originadas do positivismo constituem — independentemente dos motivos pessoais em cada caso — um melancólico ritornello na história dos fracassos das nossas ambições filosóficas. A queda no pensamento coletivo é vivenciada como um retorno da ovelha desgarrada, como uma libertação das culpas, como um reencontro com a infância perdida. Ao reintegrar-se numa comunidade ideológica o ex-filósofo arrependido encontra ainda um alívio para o isolamento que cerca o intelectual no meio subdesenvolvido, e o ingresso no grupo solidário arremeda a descoberta de um "sentido da vida".
A intelectualidade brasileira estava, por todos esses fatores, fundamente predisposta ao apelo gramsciano, onde a vida intelectual deixa de ser o esforço solitário de quem cherche en gémissant, para tornar-se a participação num "sentido da vida" amparado pela solidariedade coletiva. O Partido é às vezes chamado por Gramsci "intelectual coletivo". É o abrigo dos fracos. Aí a ascensão ao estatuto de intelectual é barateada: já não custa a penosa aquisição de conhecimentos, a investigação pessoal, a luta direta com as incertezas. Obtém-se pelo contágio passivo de crenças, de um vocabulário comum, de cacoetes distintivos. A sociedade em torno legitima a paródia: diante dessas marcas exteriores, o brutamontes de direita acredita piamente estar na presença de um intelectual. A mídia faz o resto.
O segundo fator, a situação do momento, pode-se descrever mais ou menos assim: desde a derrota da luta armada, a esquerda andava em busca de uma estratégia pela qual se orientar. Não sendo capaz de criar uma nova e não encontrando no repertório mundial uma outra à sua disposição, ela aderiu a Gramsci quase por automatismo, sonambulicamente, levada pela carência de opções.
De fato, o comunismo internacional só teve, ao longo de sua história, um número pequeno de propostas estratégicas. Marx não apresentou nenhuma. A primeira que fez sucesso foi a de Lênin. Consistia na formação de uma elite autonomeada, na tomada do poder por um golpe súbito, na posterior conversão forçada do proletariado a uma causa vencedora que se apresentava como sua. A proposta de Lênin veio a predominar sobre o socialismo evolucionário de Edward Bernstein, o que provocou o racha entre os partidos comunistas e a social-democracia, que pregava a tomada do poder por via pacífica, eleitoral e gradualista. Hoje em dia a social-democracia é a grande vencedora, dominando toda a Europa; mas, no tempo de Lênin, sua rejeição pelos comunistas parecia prenunciar o seu fracasso, o que a queda de governos social-democratas ante o avanço do nazismo aparentemente confirmou. A terceira grande estratégia foi a de Mao Tsé-tung. Nas condições da China, não havia um proletariado urbano suficiente sequer para dar apoio moral à guerra revolucionária, e como, por outro lado, o exército revolucionário, banido dos grandes centros, acabasse iniciando uma "grande marcha" pelos campos, o apoio das populações camponesas tornou-se fundamental, e Mao teorizou a coisa a posteriori, transformando a revolução proletária em "guerra revolucionária operário-camponesa" — o que teria provocado engulhos em Karl Marx, que via nos camponeses uma horda de reacionários incuráveis. Paralelamente, a submissão do movimento comunista internacional aos interesses da política exterior soviética deu nascimento a uma quarta estratégia, que encontrou sua mais clara expressão no Front Popular, e que consistia fundamentalmente numa aliança dos comunistas com os "elementos progressistas" de todas as outras correntes, direitistas inclusive. Aí, a pretexto de antifascismo, até Benedetto Croce ficou simpático. Finalmente, a quinta estratégia do movimento comunista surgiu da revolução cubana e da guerra do Vietnã. Sem um autor definido, resultando de enxertos e mixagens de várias proveniências, ela fundia, num vasto plano de guerrilhas, o combate rural e o urbano. Uma de suas versões foi a "teoria foquista" difundida por um doidão de nome Régis Débray, que obteve ampla audiência na América Latina e propunha, para fazer face ao poder maciço do imperialismo norte-americano, a formação de variados e simultâneos "focos" de guerrilhas. A teoria resumia-se no slogan então pixado nos muros de todas as universidades: "Um, dois, três, muitos Vietnãs". Deu no que deu. Dentre as muitas mixagens, uma particularmente interessante foi a que fundiu a estratégia comunista — até aí fundamentalmente proletária e camponesa, ao menos no nome — com as heresias de Herbert Marcuse, segundo o qual proletários e camponeses tinham-se integrado ao "sistema" e a revolução não tinha outros representantes autorizados senão os estudantes e intelectuais, de um lado, e, de outro, a massa dos miseráveis e marginalizados, o vasto Lumpenproletariat, do qual o velho Karl Marx aconselhava que os militantes comunistas fugissem como se foge de um assaltante à mão armada. Um dos resultados locais deste enxerto foi que, após a derrota da luta armada, os militantes brasileiros presos passaram a alimentar uma vaga esperança no potencial revolucionário do Lumpen, e, para adiantar o expediente, trataram de ir ensinando táticas de guerrilha aos bandidos com quem conviviam no presídio da Ilha Grande. ( Mais tarde ainda, a fusão do gramscismo com resíduos do marcusismo transformaria num dos pratos de resistência do cardápio esquerdista a defesa da legitimidade do banditismo como "protesto social", que, formando polaridade com a onda de combate moralista aos "colarinhos brancos", estabeleceria uma dupla moral para o julgamento dos crimes: brando para com o Lumpen, mesmo quando este mata ou estupra, rigoroso para com os ricos e a classe-média, quando cometem delitos contra o patrimônio — a mais curiosa inversão já observada na história da moralidade. )
Nessa resenha das estratégias comunistas, onde entra o gramscismo? Não entra. Ele ficou de fora, restrito a círculos locais italianos, e só alcançou maior difusão, mesmo na Itália, após a década de 50, com a edição das obras completas de Gramsci por Einaudi. A partir de l964, a facção comunista brasileira ainda fiel à orientação moscovita de aliança com a burguesia acreditou ver em Gramsci um potencial renovador desta estratégia, com a qual ele coincide ao menos no que diz respeito ao caráter eminentemente não-sangrento da luta revolucionária e na cuidadosa exclusão de quaisquer radicalismos que pudessem estreitar a base das colaborações possíveis. Porta-voz dessa corrente, o editor Ênio Silveira empreendeu então a publicação ao menos das principais obras de Gramsci: A Concepção Dialética da História; Maquiavel, a Política e o Estado Moderno; Os Intelectuais e a Organização da Cultura; Literatura e Vida Nacional e Cartas do Cárcere.
Estas obras foram muito lidas, mas, numa atmosfera dominada pela obsessão da luta armada, não exerceram influência prática imediata. Seu potencial ficou retido até a derrota da luta armada, que provocou, como não poderia deixar de ser, um retorno generalizado às teses do combate pacífico e aliancista defendidas pelo PC pró-Moscou. O reatamento do romance entre a esquerda armada e a desarmada deu-se, naturalmente, sobre um fundo musical orquestrado pelo maestro Antonio Gramsci. Simplesmente não havia outro capaz de musicar esta cena. A esquerda tornou-se gramsciana meio às tontas, jogada pelo entrechoque dos acontecimentos, como bolas de bilhar que, impelindo umas às outras, vão dar todas enfim na caçapa.
Agora, a imprensa brasileira acaba de descobrir, com um atraso de dez anos, que o programa do PT é gramsciano. Mas, além de tardia, esta descoberta é inexata: não é só o PT que segue Gramsci: todos os homens de esquerda neste país o fazem há uma década, sem se dar conta. O gramscismo domina a atmosfera por simples ausência de outras propostas e também por uma razão especial: atuando menos no campo do combate ideológico expresso do que no da conquista do subconsciente, ele se propaga por mero contágio de modas e cacoetes mentais, de maneira que põe a seu serviço informal uma legião de pessoas que nunca ouviram falar em Antonio Gramsci. O gramscismo conta menos com a adesão formal de militantes do que com a propagação epidêmica de um novo "senso comum". Sua facilidade de arregimentar colaboradores mais ou menos inconscientes é, por isto, simplesmente prodigiosa.
Eis ai o terceiro fator a que me referi. O gramscismo é menos uma filosofia do que uma estratégia de ação psicológica, destinada a predispor o fundo do "senso comum" a aceitar a nova tábua de critérios proposta pelos comunistas, abandonando, como "burgueses", valores e princípios milenares.
Que essa "filosofia", para se propagar, não conte tanto com a persuasão racional como com a eficácia da penetração sutil no inconsciente das massas, é o que se vê claramente pela sua ênfase na conquista das mentes infantis — um terreno onde o avanço da esquerda vem causando um dano incalculável a milhões de crianças brasileiras, usadas como cobaias de uma desastrosa experiência gramsciana. Que, enfim, essa corrente haja alcançado sucesso no Brasil, é algo que testemunha a miséria intelectual de um meio onde os letrados, incapazes de suportar o isolamento, buscam menos a verdade e o conhecimento do que uma carteirinha de intelectual orgânico, que lhes garanta o apoio psicológico de um vasto grupo solidário e os aureole de um ambíguo prestígio aos olhos dos brutamontes de direita, sua mal disfarçada paixão.
Isso não poderia acontecer senão aqui.


EZEQUIEL DOMINGUES DOS SANTOS

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