quarta-feira, 8 de agosto de 2012

O Poeta




Sou um estrangeiro neste mundo.
Sou um estrangeiro, e há na vida do estrangeiro uma solidão
pesada e um isolamento doloroso. Sou assim levado a pensar sempre
numa pátria encantada que não conheço, e a sonhar com os sortilégios
de uma terra longínqua que nunca visitei.
Sou um estrangeiro para minha alma. Quando minha língua fala,
meu ouvido estranha-lhe a voz. Quando meu Eu interior ri ou chora, ou
se entusiasma, ou treme, meu outro Eu estranha o que ouve e vê, e
minha alma interroga minha alma. Mas permaneço desconhecido e
oculto, velado pelo nevoeiro, envolto no silêncio.
Sou um estrangeiro para o meu corpo. Todas as vezes que me
olho num espelho, vejo no meu rosto algo que minha alma não sente, e
percebo nos meus olhos algo que minhas profundezas não reconhecem.
Quando caminho nas ruas da cidade, os meninos me seguem
gritando: “Eis o cego, demos-lhe um cajado que o ajude.” Fujo deles.
Mas encontro outro grupo de moças que me seguram pelas abas da
roupa, dizendo: “É surdo como a pedra. Enchamos seus ouvidos com
canções de amor e desejo.” Deixo-as correndo. Depois, encontro um
grupo de homens que me cercam, dizendo: “É mudo como um túmulo,
vamos endireitar-lhe a língua.” Fujo deles com medo. E encontro um
grupo de anciãos que apontam para mim com dedos trêmulos, dizendo:
“É um louco que perdeu a razão ao freqüentar as fadas e os feiticeiros.”
Sou um estrangeiro neste mundo.
Sou um estrangeiro e já percorri o mundo do Oriente ao Ocidente
sem encontrar minha terra natal, nem quem me conheça ou se lembre de
mim.
Acordo pela manhã, e acho-me prisioneiro num antro escuro,
freqüentado por cobras e insetos. Se sair à luz, a sombra de meu corpo
me segue, e as sombras de minha alma me precedem, levando-me
aonde não sei, oferecendo-me coisas de que não preciso, procurando
algo que não entendo. E quando chega a noite, volto para a casa e deitome
numa cama feita de plumas de avestruz e de espinhos dos campos.
Idéias estranhas atormentam minha mente, e inclinações
diversas, perturbadoras, alegres, dolorosas, agradáveis. À meia-noite,
assaltam-me fantasmas de tempos idos. E almas de nações esquecidas
me fitam. Interrogo-as, recebendo por toda resposta um sorriso. Quando
procuro segura-las, fogem de mim e desvanecem-se como fumaça.
Sou um estrangeiro neste mundo.
Sou um estrangeiro e não há no mundo quem conheça uma única
palavra do idioma de minha alma...
Caminho na selva inabitada e vejo os rios correrem e subirem do
fundo dos vales ao cume das montanhas. E vejo as árvores desnudas se
cobrirem de folhas num só minuto. Depois, suas ramas caem no chão e
se transformam em cobras pintalgadas.
E as aves do céu voam, pousam, cantam, gorgeiam e depois
param, abrem as asas e viram mulheres nuas, de cabelos soltos e
pescoços esticados. E olham para mim com paixão e sorriem com
sensualidade. E estendem suas mãos brancas e perfumadas. Mas, de
repente, estremecem e somem como nuvens, deixando o eco de risos
irônicos.
Sou um estrangeiro neste mundo.
Sou um poeta que põe em prosa o que a vida põe em versos, e
em versos o que a vida põe em prosa. Por isto, permanecerei um
estrangeiro até que a morte me rapte e me leve para minha pátria.
                                                                                                                    
   (Extraído de “Temporais” de Gibran Khalil)

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