quinta-feira, 9 de agosto de 2012

O céu dos antigos

   
     Se um bicho-da-seda desse o nome de céu à tênue penugem que envolve internamente seu casulo, racionaria tão bem como os antigos que deram o nome de "céu" à atmosfera que é, como muito bem diz Fontenelle em seu livro Mundos, a penugem de nosso casulo.
       Os vapores que sobem de nossos mares e de nossa terra e que formam as nuvens, os meteoros e os trovoões, foram de início tomados como morada dos deuses. Em Homero, os deuses sempre descem em nuvens de ouro; por causa disso os pintores ainda hoje representam sentados numa nuvem. Mas como era que o senhor dos deuses estivesse mais à vontade que os outros, deram-lhe uma águia para transportá-lo, porque a águia voa mais alto que as outras aves.
     Os antigos gregos, vendo que os senhores das cidades moravam em cidadelas no alto de alguma montanha, julgaram que os deuses também deviam ter uma cidadela e a colocaram na Tessália, sobre o monte Olimpo, cujo vértice às vezes se esconde no meio das nuvens, de modo que seu palácio se achava no mesmo nível de seu céu.
     As estrelas e os planetas, que parecem engastadas na abóbada azul de nossa atmosfera, se tornaram logo as moradas dos deuses; sete dentre estes tiveram cada um seu planeta, os outros se alojaram onde melhor puderam. O conselho geral dos deuses se reunia uma grande sala à que se chegava pela Via Láctea, pois era realmente necessário que os deuses tivessem uma sala de reuniões no ar, visto que os homens tinham palácios de governo na terra.
     Quando os titãs, espécie de animais entre os deuses e os homens, declararam uma guerra bastante justa a esses deuses, para reclamar uma parte de sua herança paterna, uma vez que eram filhos do Céu e da Terra, não tiveram mais que empilhar duas ou três montanhas umas sobre outras para se tornarem senhores do céu e do castelo do Olimpo.
     Essa física de crianças e de velhas era prodigiosamente antiga; entretanto, é muito provável que os caldeus tivessem ideias tão sadias quanto nós daquilo que se chama o céu. Eles colocaram o sol no centro de nosso mundo planetário, numa distância de nosso globo aproximadamente como a conhecemos hoje; faziam girar em torno do sol a terra e todos os planetas; é o que nos informa Aristarco de Samos; é o verdadeiro sistema do universo, posteriormente para si, a fim de serem mais respeitados pelos reis e pelo povo ou, melhor, para não serem perseguidos.
     A linguagem do erro é tão familiar aos homens, que ainda chamamos nossos vapores eo espaço entre a terra e a lua com o nome de céu; dizemos subir ao céu, como dizemos que o sol gira, embora saibamos que não é assim; nós somos provavelmente o céu no planeta vizinho.
Se acaso se tivesse perguntando a Homero para que céu tinha ido a alma de Sarpedon, onde estava a de Hércules, Homero teria ficado embaraçado: teria respondido com versos harmoniosos.
     Como saber se a alma aérea de Hércules se encontraria mais à vontade em Vênus, em Saturno do que na terra? Ou estaria no sol? é de crer que não estivesse muito à vontade nessa fornalha.
Enfim, que entendiam os antigos por o céu? Não sabiam nada; sempre exclamavam: o céu e a terra; é como se disséssemos: o infinito e um átomo. Propriamente falando, não existe céu. O que há é uma quantidade prodigiosa de globos girando no espaço vazio e nosso globo gira como os outros.
      Os antigos acreditavam que ir aos céus era subir; mas não se sobe de um astro a outro; os corpos celestes estão ora abaixo de nosso horizonte, ora acima dele. Assim, supondo que Vênus,  tendo vindo a Pafos, regressasse a seu planeta quando este se tivesse posto, então a deusa Vênus não subiria em relação a nosso horizonte: pelo contrário, desceria e, nesse caso, se deveria dizer descer ao céu. Os antigos, porém, não entendiam tanta sutileza, tinham noções vagas, incertas, contraditórias sobre tudo o que se referia à física. Foram escritos volumes imensos para tentar saber o que pensavam sobre questões desse gênero. Três palavras seriam suficientes: eles não pensavam.
     Sempre se deve excetuar um reduzido número de sábios, mas vieram mais tarde; pouco explicaram seus pensamentos e, quando o fizeram, os charlatões os mandaram para o céu pelo caminho mais curto.
     Um escrito chamado, me parece, Pluche pretendeu fazer de Moisés um grande físico;outro, antes dele, havia conciliado Moisés com Descartes e havia publicado o livro Cartesius Mosaizans; segundo ele, Moisés foi o primeiro a descobrir as causas dos turbilhões e a matéria sutil. Mas é mais que sabido que Deus, que fez de Moisés um grande legislador, um grande profeta, não quis de modo algum fazer dele um professor de física; Moisés instruiu os judeus sobre seu dever e não lhes ensinou uma palavra sequer filosofia. Clamet, que compilou  muito e nunca se deu o trabalho de raciocinar, fala do sistema dos hebreus; mas esse povo rude estava bem longe de ter um sistema; nem sequer possuíam escola de geometria, até mesmo o nome desta disciplina lhes era desconhecido; sua única ciência era ofício de corretor e a usura. Encontram-se em seus livros algumas ideias obscuras, incoerentes, dignas em tudo de um povo bárbaro, sobre a estruturta do céu. Seu primeiro céu era o ar; o segundo, o firmamento, onde estavam suspensas as estrelas; esse firmamento era sólido e de gelo e sustinha as águas superiores que, no período do dilúvio, vazaram desse reservatório por portas, eclusas e cataratas.
     Acima desse firmamento ou dessas águas superiores estava o terceiro céu ou o empíreo, para onde são Paulo foi arrebatado. O firmamento era uma espécie de meia abóbada que envolvia a terra. O sol não fazia o giro de um globo que nem sequer conheciam. Chegando ao ocidente, voltava ao oriente por um caminho desconhecido; e, se não era mais visto, era, como o diz o barão de Foeneste, porque voltava de noite.
    Os hebreus haviam adotado esses devaneios dos outros povos. A maioria das nações, excetuando-se a escola dos caldeus, considerava o céu como um sólido; a terra, fixa e imóvel, era um terço abundante mais comprida de oriente a ocidente do que de norte a sul; disso provêm os termos longitude e latitude que adotamos. Por isso santo Agostinho trata a ideia de existência de antípodas como um absurdo e Lactâncio diz expressamente: "Haverá gente tão louca a ponto de acreditar que possa haver homens de cabeça para baixo? etc.
    São Crisóstomo exclama em sua 14ª. homilia: "Onde estão aqueles que pretendem que os céus sejam imóveis e que sua forma seja cicular?"
Lactâncio, no livro terceiro de suas Instituições, diz ainda:"Eu poderia demonstrar-lhes por meio de muitos argumentos que é impossível que o céu circunde a terra."
    O autor do Espetáculo da Natureza poderá dizer a quem quiser e quanto quiser que Lactâncio e são Crisóstomo eram grandes filósofos; o que se poderá responder é que eram grandes santos e que não é indispensável, para ser santo, ser um bom astrônomo. Deve-se acreditar que eles estão no céu, mas deve-se confessar que não se sabe precisamente em que ponto do céu.

                                                                         Voltaire - Dicionário Fillosófico

Nenhum comentário:

Postar um comentário