sábado, 25 de agosto de 2012

Não tenho fé suficiente pra ser ateu (Parte 7)

  


 Na maioria das vezes os ateus são sábios ousados e desgarrados que raciocinam mal e que, não podendo compreender a criação, a origem do mal e outras dificuldades, recorrem à hipótese da eternidade das coisas e da necessidade.
   Os ambiciosos, os voluptuosos não têm sequer tempo para raciocinar e abraçar um mau sistema; têm mais que fazer do que comparar Lucrécio com Sócrates. É assim que vão andando as coisas entre nós.
   O mesmo não ocorria no senado de Roma, que era quase em sua totalidade composto de ateus, ateus na teoria e na prática, ou seja, que não acreditava nem na providência nem na vida futura; esse senado era uma assembleia de filósofos, de voluptuosos e de ambiciosos, todos muito perigosos e que acabaram perdendo a república. O epicurismo subsistiu sob todos os imperadores; os ateus do senado haviam sido facciosos na época de sila e de César e foram, sob Augusto e Tibério, ateus escravos.
  Não gostaria de depender de um princípe ateu, cujo interesse seria o de me mandar esmagar num lagar; e estou certo de que seria esmagado. Não gostaria, se eu fosse soberano, ter de tratar com cortesãos ateus, cujo interesse seria de me envenenar: eu me veria obrigado ao acaso tomar antídotos todos os dias. É absolutamente necessário, portanto, para os princípes e para os povos, que a ideia de um ser supremo, criador, condutor, renumerador e vingador esteja profundamente gravada nos espíritos.
    ...Que conclusão podemos tirar de tudo isso? Que o ateísmo é um monstro muito pernicioso naqueles que governam; que é porque de seus gabinetes podem perfurar até que detêm o comando, porque o ateísmo, se não é tão funesto como o fanatismo, é quase sempre fatal à virtude. Acrescentemos prinsipalmente que menos ateus hoje que nunca, desde que os filósofos reconheceram que não há um ser vegetando sem germe, nenhum germe sem finalidade, etc., e que o trigo não nasce da podridão.
    Geômetras que não eram filósofos rejeitaram as causas finais, mas os verdaeiros filósofos as admitem; e, como disse um autor conhecido, um catequista anuncia Deus às crianças e Newton o demonstra aos sábios.

                                                                             Voltaire - Dicionário filosófico

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